Por Julia Alimonda
Mestra em Cinema (UFF), Graduada em Cinema (Estácio) e em Antropologia (UFF)
Um filtro de barro. Tampas de panela na pia. Fios embaixo da escrivaninha. Piso de taco desgastado. Vaso de espadas de São Jorge. Tapetes de banheiro. Roupas penduradas. Um aparelho de DVD. Caixas com entulhos. Todos estes objetos aparecem nos vídeos pornográficos apresentados na aba Goze Junte, do site pornográfico Ediyporn. Na seção Goze Junte, a plataforma Ediyporn convida os usuários a enviarem seus próprios vídeos caseiros de cenas de masturbação. Os mais de 60 vídeos disponíveis na plataforma são semelhantes. Os corpos aparecem fragmentados, apenas com as genitálias explícitas. A câmera na mão treme, muda de ângulo. Os objetos caseiros do cenário trazem às cenas de masturbação uma áurea de real.
Roland Barthes (2004) argumenta que as descrições possuem um papel importante como elementos que ajudam a construir os significados das narrativas. Estes detalhes descritivos, que não contribuem necessariamente com desenvolvimento da ação narrativa, são um artifício que constroem o efeito de real. A eficácia deste artifício está no fato de que estes detalhes são passados para o leitor sem que ele perceba. Apesar de não se referir ao audiovisual, muito menos à pornografia, o efeito de real pensado por Barthes, é semelhante à estratégia estética que as pornografias utilizam para construir a realidade nos filmes. Os fragmentos de cenário exibidos nas produções caserias do Goze Junte servem para complementar a narrativa pornográfica, inserindo a ação sexual num ambiente cotidiano.
Ediyporn é uma plataforma de pornôs desviantes, construída coletivamente. No site, os conteúdos pornográficos, feitos pela própria Ediyporn, buscam se desenvolver através de imaginários sexuais excluídos das normas. A produtora paulista se insere no contexto de produções pornográficas que criticam a indústria mainstream e constroem outras narrativas sobre o sexo que foram excluídas das produções de desejo ao longo da história. Além do caráter representacional, estas produções também são realizadas por corpos desviantes, que atuam dentro e fora da câmera, e transformam as representações sexuais e as relações de trabalho da indústria pornográfica.
O site Ediyporn possui conteúdo exclusivo para assinantes, um blog com textos sobre sexualidade, além de realizarem performances artísticas na cidade de São Paulo. Meu foco no presente artigo está em uma das abas do site chamada Goze Junte. Ao clicar na aba, aparece a seguinte chamada: “Na Ediyporn a putaria é feita por todes! Vem gozar aqui! mande seu vídeo de até 1 minuto se masturbando para info@Ediyporn.com”. Logo abaixo da chamada, a plataforma disponibiliza gratuitamente os vídeos enviados pelo público.
Meu objetivo aqui não é avaliar se os filmes são verdadeiramente caseiros ou se são falsos, mas sim, pensar em como os artifícios de real são utilizados pela pornografia amadora e como isso gera um envolvimento mais intenso no público do que aquelas pornografias feitas de maneira profissional. Os elementos tecnológicos e estéticos, a baixa qualidade de imagem, a bagunça no cenário e o close-up nas genitálias são recursos que constroem um discurso de real altamente eficiente em se anunciar como verdade.
Entre ficção e não-ficção: autenticidade e hipérbole na linguagem pornográfica
Em termos estéticos, é possível afirmar que a pornografia mainstream utiliza uma linguagem que se sustenta e se legitima nas convenções realistas, enquanto introduz aspectos extremamente artificiais e fantasiosos. Para Susanna Paasonen (2011), a estética pornográfica transita entre autenticidade e a hipérbole: ao mesmo tempo em que a linguagem amadora é utilizada, o exagero nas formas de transmissão sexual é uma marca do gênero. As dualidades entre autenticidade e artifício, caseiro e comercial, sexo por prazer e sexo por dinheiro, fazem parte dos cenários pornográficos, segundo a autora. Esta fronteira transitória entre ficção e não-ficção também é observada por Maria Elvira Díaz-Benítez (2010). Para ela, os vídeos pornográficos devem parecer reais, mas são consumidos exatamente por não o serem:
O que está em jogo são as pretensões de realidade, embora um de seus principais detonadores simbólicos seja a encenação de fantasias e o exagero (na duração da transa e no tamanho das genitálias, por exemplo), transgredindo a ideia de um sexo cotidiano. Tal conceito refere-se, especialmente, aos modos como as práticas sexuais são captadas: de uma maneira tal que os detalhes possam mostrar como elas “realmente” estão acontecendo (DÍAZ-BENÍTEZ, 2010, p.104).
Já no século XXI, em que as tecnologias imagéticas se desenvolveram rapidamente, o interesse do público em observar a vida privada aumentou. Para Paasonen (2011), reality shows e webcams redesenharam os limites da privacidade e da observação da vida íntima através das câmeras. Neste contexto, o senso de realidade da pornografia se tornou mais importante do que já era porque serve para captar a audiência. O público associa a autenticidade à ausência de mediação e representação, valorizando estas produções por sua espontaneidade no registro da vida cotidiana.
Ao analisar as práticas midiáticas, Paula Sibilia (2015) observa que as novas tecnologias permitem construções subjetivas de identidade que fazem com que a intimidade seja transformada em um espetáculo. A teoria da autora é que a intimidade exibida no mundo contemporâneo é reivindicada como autêntica, mas essa autenticidade não é baseada em uma essência imutável. A veracidade está em sua capacidade de se apresentar como legítimo em determinados contextos. Não se espera que os sujeitos encenem algo que eles não são, mas a autenticidade contemporânea exalta a capacidade das pessoas de criarem um espetáculo realista.
A noção de autenticidade para Sibilia (2015) é interessante para pensarmos as performances pornográficas como algo fabricado. Entender a autenticidade como uma performance que faz parte da construção dos sujeitos contemporâneos pode ser útil ao analisar os filmes pornográficos, já que estes filmes dialogam com a ideia de performances autênticas, palavras que, em um primeiro momento, podem parecer opostas.
Reivindicação da autenticidade como testemunhos íntimos
Apesar de a autenticidade fazer parte da linguagem pornográfica, outras características de suas produções, como as representações do prazer feminino e as coreografias sexuais, são consideradas extremamente artificiais por parte do público. Como os filmes pornográficos costumam seguir convenções muito rígidas de estilo, pornografias alternativas começaram a ser criadas com o objetivo de mostrar representações mais reais do sexo.
O movimento do Club 90, liderado por atrizes pornôs, foi precursor neste sentido, ao criar filmes que valorizavam expressões de prazer feminino mais reais. O realismo, por tanto, virou um conceito em disputa, sendo utilizado pelas grandes produtoras mainstream, mas também sendo reivindicado pelas produtoras alternativas que utilizam a autenticidade como artifício político para se pensar em novas representações do desejo que se entendem como mais verdadeiras do que as mainstream. Estas produções se inserem no contexto de pornografias feministas, éticas, queer, alt-porn, entre outros. As produções do Ediyporn, por tanto, fazem parte deste contexto em que a autenticidade é utilizada como uma estratégia estética e política.
Além disso, atualmente as marcas de autenticidade também foram alavancadas pela proliferação de sites de camming, sobretudo durante a pandemia de COVID-19. O crescimento de plataformas como Onlyfans e Câmera Prive acabou transformando a forma de se produzir e consumir materiais pornô.
Se antes, para a produção de um filme era preciso uma pequena equipe cinematográfica, com as novas plataformas, as trabalhadoras sexuais realizam todo o trabalho de produção, edição e captação de clientes. Pela estrutura da plataforma, esperam-se vídeos que sejam mais amadores, gravados com webcam ou câmeras simples. Desta forma, é inevitável que os artifícios de realidade tenham sido intensificados nas produções pornográficas após 2020.
Ao analisar o mercado das artes, Sarah Banet-Weiser (2012, p.6), observa que no século XXI as pessoas anseiam por coisas autênticas porque existe uma noção de que nada mais é real. Os espaços criativos, são para a autora, lugares em que acreditamos que exista autenticidade. E o que é entendido e vivenciado como autêntico é considerado como tal por não ser comercial. Podemos neste caso, pensar que as pornografias amadoras disponíveis no site do Ediyporn são entendidas como mais autênticas do que os outros vídeos presentes no site, não só por questões estéticas, mas por sermos induzidos a acreditar que os vídeos foram gravados pelo desejo de ser filmado, e não pelo desejo de ganhar dinheiro.
Este é um fator crucial para se pensar o conceito de autenticidade nas pornografias contemporâneas porque as relações entre sexo e dinheiro se apresentam de maneira tensionada em nossa sociedade. Para Tim Gregory (2022), faz parte de um movimento global utilizar a autenticidade na pornografia para mostrar como esta pode ser consumida e produzida de forma ética e prazerosa. Através de uma postura ética, as técnicas que enfatizam a autenticidade são utilizadas para confrontar os estereótipos de que toda pornografia é exploração.
No caso das pornografias amadoras comercializadas gratuitamente o pacto ético é criado justamente pela ausência de dinheiro. Ao analisar a autenticidade nas pornografias, Heather Berg (2021) observa que o amadorismo na pornografia também se funde com o estigma que o trabalho sexual carrega. É como se os consumidores não se sentissem bem assistindo filmes pornográficos com atrizes e atores porque o sexo presente na tela foi feito por dinheiro.
Já o sexo amador, feito somente por prazer, teria como garantido que foi feito com consentimento, uma vez que não envolve nada além do prazer de se gravar sentindo prazer. A filmagem do sexo não-pago funciona como uma chancela ética que legitima aquelas produções como seguras para os corpos presentes em quadro. O amadorismo na pornografia, por tanto, pode ser entendido como uma maneira de distanciar-se do trabalho sexual, o que pode reforçar estereótipos negativos contra as trabalhadoras sexuais, tema que poderá ser aprofundado em outro artigo.
Para Mariana Baltar e Nayara Barreto (2014) a construção narrativa do consentimento das obras amadoras se dá através deste link com o real. O fato das filmagens serem amadoras é o que garante o consentimento. Além disso, as autoras utilizam o termo ‘pornificação de si’ para referir-se ao desejo que sujeitos comuns possuem de criar uma performance de si, que faz parte da construção da sexualidade atual e é mobilizada a partir do prazer dos próprios sujeitos que se pornificam diante da câmera.
Não é só o prazer sexual que está em jogo, mas também o prazer em ser filmado e compartilhar com o mundo. Isso alterna a velha lógica que separa os produtores dos consumidores. Com a pornificação da cultura e a pornificação de si, os próprios consumidores produzem e consomem as mídias. Para Baltar e Barreto:
O ponto crucial para a nossa análise é exatamente o fato de que, nesta nova lógica de netporn e pornografia na net, os corpos consumidos também são corpos que consomem através da troca mútua e do constante caráter participativo na construção do prazer presente na imagem, permitindo ainda novos intercâmbios. Assim, produtores e consumidores tornam-se apenas um elemento de um jogo complexo em que polos de atuação e passividade não podem mais ser definidos de modo determinado ou determinista (BALTAR; BARRETO, 2014, p. 272).
Aliás, cabe destacar que no contexto do Goze Junte, é feito um convite para que a comunidade toda goze de maneira unida, fortalecendo os laços comunitários. Além da pornificação de si presente nos vídeos do Goze Junte do site Ediyporn, a produção destes conteúdos funciona como uma espécie de testemunho íntimo em que é revelada, através das marcas de autenticidade, verdades íntimas sobre aqueles corpos. Essa verdade é exposta explicitamente em close-ups pelos sujeitos que são os autores e os personagens das obras. Cabe lembrar, como aponta Rothberg (2004), que o desenvolvimento tecnológico e as novas políticas de descolonização utilizam a vida íntima como desenvolvimento dramático, formando um espaço onde as experiências pessoais podem ser comunicadas como testemunhos do real.


Como é possível observar nas imagens acima, em Goze Junte, a realidade é sustentada através dos dispositivos tecnológicos de baixa qualidade, a falta de foco, a proximidade do corpo na tela em primeiro plano sem nunca aparecer o rosto, os fundos de quadro permeados com objetos do cotidiano, o som naturalista. Destaco também que os enquadramentos fotográficos contribuem para convocar a autenticidade das imagens. Os vídeos, devido ao ângulo e movimentação de câmera, parecem ter sido gravados pelos próprios personagens em quadro, que seguram a câmera com as próprias mãos enquanto se masturbam ou através de uma câmera parada no ambiente.
Todos estes fragmentos se constituem como discursos de si que constroem a realidade amadora. Além disso, os corpos e práticas sexuais presentes em tela são dissidentes e não são separados por gênero, sexualidade ou raça, como é comum nos sites de pornografia tradicionais. Os vídeos amadores de Goze Junte, por tanto, através de sua estética e embasamento político, funcionam como testemunhos íntimos em que os espectadores são convocados a desfrutar de autênticas performances de sexualidade.
Conclusão
A vida cotidiana é convidada para ser performada de forma realista diante das câmeras nos vídeos de masturbação do Ediyporn. Não é só a exposição dos corpos e de seus prazeres que garantem o espetáculo do real, mas seus espaços cotidianos presentes em quadro. O prazer é intensificado porque se une ao desejo de assistir a intimidade de pessoas comuns. Os vídeos presentes na aba Goze Junte do site Ediyporn atualizam as noções de autenticidade do gênero pornográfico.
As cenas masturbatórias, filmadas com a câmera, ou melhor, com o celular, são práticas de testemunho íntimo expostas para o público. Nestes fragmentos, as convenções estéticas imprimem a autenticidade, intensificando as noções de prazer real e destruindo a ideia de sexo pago. Além disso, estes testemunhos funcionam como narrativas contra-hegemônicas que reescrevem o gênero pornográfico e constroem, pelas lentes dos próprios consumidores de pornô, novos relatos de prazer.
Bibliografia
BALTAR, Mariana; BARRETO, Nayara. As pornificações de si em diário da putaria. Crítica Cultura, vol. 9, n.2, pag. 265-278, 2014.
BANET-WEISER, Sarah. Authentic TM: The politics of ambivalence in a brand culture. 1 ed. Nova York: New York University Press. 2012.
BARTHES, Roland. O efeito de real. In: O rumor da língua. 1 ed. São Paulo: Cultrix, 2004.
BERG, Heather. Porn Work: Sex, Labor, and Late Capitalism. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 2021.
DÍAZ-BENÍTEZ, Maria Elvira. Nas redes do sexo: os bastidores do pornô brasileiro. 1 ed. Rio de Janeiro: Zahar. 2010.
GREGORY, Tim. A decolonial critique of ‘authentic’ pleasure in contemporary Australian heteroporn. Posn Studies, vol. 9, n. 2, p.224-240, 2022.
PAASONEN, Susanna. Carnal resonance: affect and online pornography. Cambridge: MIT Press, 2011.
ROUNTHWAITE, Adair. From This Body to Yours: Porn, Affect, and Performance Art Documentation. Camera Obscura 78, vol. 26, n. 3, p. 62-93, 2011.
SIBILIA, Paula. Autenticidade e performance: a construção de si como personagem visível. Revista Fronteiras – estudos midiáticos. Vol. 17 Nº 3 – setembro/dezembro, 2015.
