Neste episódio, o editor-chefe da F(r)icções, Márcio Andrade, mergulha na obra e no pensamento de André Medeiros Martins, performer, ator e autoficcionista que investiga o corpo, o desejo e a pornografia como dispositivos de criação.
Partindo de filmes como Alfredo não gosta de despedidas e Alfabeto Sexual, discutimos como práticas íntimas, rituais performativos e registros cotidianos transformam-se em narrativas capazes de questionar limites entre documentário, ficção, exposição e fabulação.
A conversa atravessa temas como nudes, selfies, escrita de si, pornografia online, performance, memória familiar e a potência do corpo como método de pesquisa e invenção artística. Um episódio para quem deseja refletir sobre o íntimo como acontecimento político, estético e existencial.
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Ficha Técnica
Roteiro e Apresentação – Márcio Andrade
Edição – Priscila Nascimento
Produção – Janaína Guedes
Arte de Capa – Paula K
Edição de Materiais Gráficos – Rodrigo Sarmento
Coordenação Geral – Márcio Andrade
Realização – Combo Multimídia
Incentivo – Lei Paulo Gustavo – Edital Geraldo Pinho (Prefeitura do Recife)
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Referências
BRASIL, André. Formas de vida na imagem: da indeterminação à inconstância. In Revista FAMECOS, v. 17, nº 3, set/dez 2010, pp. 190-198.
SIBILIA, Paula. La espectacularización del yo. El monitor de la Educación. Buenos Aires, p.34 – 37, 2008
ODIN, Roger (org). Le film de famille: usage privé, usage public. Paris: Méridiens Klincksieck, 1995.
FELDMAN, Ilana. Jogos de cena: Ensaios sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicação e Artes – ECA, Universidade de São Paulo – USP. São Paulo, 2012. 162p.
SILVA, Mariana Duccini. Ponto de vista a(u)torizado: composições de autoria no documentário brasileiro contemporâneo. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicação e Artes – ECA, Universidade de São Paulo – USP. São Paulo, 2013. 239p.
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Transcrição
[Toque de introdução]
[Márcio] Olá pessoal, meu nome é Márcio Andrade e esse é o F(r)icções. Esse é um podcast que integra um projeto de pesquisa sobre as diversas formas de escritas autobiográficas e autoficcionais no campo do cinema e do audiovisual. Além do podcast, a revista digital conta com um conjunto de ensaios e vídeo-ensaios que vão abordar as escritas de si em diferentes formatos: a carta fílmica, o ensaio, a autoficção e a autobiografia.
[Márcio] A partir desses diversos ângulos, a gente pretende compor um panorama das reflexões mais recentes em torno da escrita em primeira pessoa e das suas variadas modalidades. E o tema desse podcast é “Do familiar ao obsceno – Alfabeto Sexual entre a autoficção e a imagem pornográfica”.
[Toque de transição]
[Márcio] Quando a gente fala sobre escritas de si no cinema, é bem importante a gente lembrar que esse impulso, né?, de registrar a própria vida, não nasce dentro do que a gente tradicionalmente entende como uma obra de expressão artística. Desde os primeiros filmes dos irmãos Lumière, as cenas domésticas ou ambientes privados já eram registrados para o público, né? A memória familiar, como viagens, aniversários, batizados, casamentos…
[Márcio] Ela se tornou também um motor para os primeiros registros em movimento. E esses registros, né?, criaram uma espécie de tradição a que se dá o nome de “filmes de família”. São filmes que, ainda que não tenham qualquer ambição estética maior, acabaram moldando formas futuras de pensar o cinema como esse lugar de inscrever a subjetividade. E, com o tempo, esse olhar para dentro do próprio ambiente íntimo ou familiar
[Márcio] começou a tensionar a lógica dominante do documentário, que olha exclusivamente para o outro. Então, a memória pessoal, o corpo, a casa e o desejo foram se tornando campos legítimos de se investigar artisticamente. E é nesse território que a gente vai falar sobre a obra do nosso entrevistado de hoje, André de Medeiros Martins. Ele é ator e performer, mas também se identifica como um autoficcionista.
[Márcio] No teatro, ele foi ator e assistente de direção do espetáculo História do Olho, Conto de Fadas Pornô Noir e, além disso, é idealizador e organizador de publicações como “Flexões, um estudo sobre a sexualidade plural” e o projeto “Vulgar”. Nesse podcast, a gente vai enfatizar o trabalho do André no cinema, em especial os longas Alfredo Não Gosta de Despedidas e Alfabeto Sexual.
[Márcio] Eu conheci André quando participei de um grupo de estudos sobre pornografia conduzido pela diretora e dramaturga Janaina Leite, e, nos contatos com as reflexões dele sobre como ele colocava o próprio corpo em cena nas performances sexuais, eu acredito que ele tem um olhar que é bastante singular em torno das escritas de si na imagem. E, a partir desse trânsito entre performance e fotografia, cinema, experiências do corpo também,
[Márcio] André elabora um cinema e filmes pornográficos que vão questionar muitas vezes as possibilidades e os limites da autoficção nesse encontro com a imagem pornográfica. E, para abrir a nossa conversa, eu pedi que ele nos contasse um pouco sobre como essa trajetória, como surgiu esse… esse interesse em transformar a própria vida também em criação.
[André] Na minha trajetória básica, eu sou ator, eu trabalho como ator de teatro e isso é meu ofício há 25 anos. Mas, em algum momento, eu acho que já vai fazer, sei lá, 15 anos ou até um pouco mais, eu descobri, primeiro pela fotografia, uma possibilidade de criar obras que, para mim, tinham uma outra dinâmica e uma outra ordem que no teatro eu ainda não tinha encontrado.
[André] Então, eu, dentro da fotografia, começava a brincar com sessões onde, de alguma maneira, eu registrava partes da minha vida ou sessões com outras pessoas em que eu incorporava textos que tinham a ver, de alguma maneira, com algo que naquele momento significava para mim, e eu fui criando. Eu acho que, mais do que essas plataformas de pensar fotografia, cinema, teatro, eu acho que a performance entrou, ela cruzou com tudo isso, assim.
[André] Então, eu sinto que, dentro da fotografia, há muito mais fotografias performáticas. Dentro do próprio cinema, tem muito mais uma performance no audiovisual do que necessariamente uma… “Ah, eu faço filmes” ou o que eu fiz [inaudível]. Acho que tem esse lugar de ator-performer que só foi experienciando estéticas diferentes, práticas diferentes. Eu acho que tem esse caminho… esse trajeto. E daí eu começo fazendo a fotografia, pensando, por exemplo, que eu sempre tive muito interesse na nudez.
[André] E nunca era porque eu achava a nudez bonita, mas era porque eu sabia que era uma crise para as pessoas, a própria nudez. Então, eu achava interessante acompanhar as pessoas nesse processo de crise e nesse processo de experiência, algum tipo de experiência que a pessoa estava tocando ali. Então, eu sempre me interessei pela nudez e, daí, as fotografias inicialmente sempre tinham esse… ah, esse dispositivo inicial.
[André] E, daí, em algum momento, quando pensar que eu faço isso, sei lá… 15 anos ou até mais. É antes da época de nudes, era antes da época, antes da pandemia. Antes, era um movimento em que a gente não se via pelado tão facilmente. A gente não tinha os smartphones e, em algum momento, quando acontece esse “boom” inicial, onde todo mundo começa a se ver,
[André] eu fui sentindo que o que eu tinha que fazer dentro da fotografia já não tinha mais razão. Assim, acho que já tinha uma outra relação das pessoas com a fotografia do seu próprio corpo. E, daí, eu falei: “E se eu começar a trabalhar com o vídeo?”, e daí eu começo a fazer os pornôs, e então passa de uma imagem estática para uma imagem…
[André] Eu acho que até na própria fotografia eu flertei menos, mas já flertava com a ideia do explícito. E, daí, depois, quando eu passo para o pornô… Só que eu tive uma coisa: o meu próprio site é a minha… são as casas que eu morei, é a planta baixa dos apartamentos que eu morei. Quando eu comecei a primeira cena pornô que eu gravei mesmo, oficial, eu convidava as pessoas para a gente transar em todos os cômodos da casa, porque eu já tinha um interesse em registrar a casa através de uma ação que estava acontecendo.
[André] Então nunca foi “Vamos trepar e eu quero gravar um vídeo trepando”, assim. Sempre tinha alguma conexão com algo. Ou a arquitetura da casa, ou a memória… porque sempre teve esses pornôs, eles já tinham algum tipo de apelo autobiográfico, relato ficcional, eles já tinham uma aproximação, um diálogo com esses… com esses espaços. E daí que eu começo, eu, olhando para esse material…
[André] Bem no começo, assim, as primeiras cenas que eu tenho, eu falo: “Ah, acho que eu queria experimentar, criar uma obra a partir dessas imagens pornográficas que eu tenho dessa minha casa.” E daí é onde eu elaboro o primeiro filme O Alfredo não gosta de despedidas, que tem uma questão que eu acho muito interessante, que é a discussão se é cinema ou não.
[André] E para mim não é uma crise, e super vou entender determinados grupos olharem para ele, não sentirem ele como cinema, e para mim tá tudo bem também. Tá tudo… Eu acho que é uma experiência, um exercício que eu fiz de imagens em movimento que eu tinha e eu quis colocar dentro de uma dramaturgia.
[André] O que ela é? Eu acho que tem determinados preceitos e determinados pilares do cinema que talvez não eram o meu interesse na época mesmo. Então talvez não pertença a esse lugar. Mas, a partir daí, eu fui elaborando essas possibilidades dentro do audiovisual.
[Toque de Transição]
[Márcio] Quando a gente fala sobre as escritas de si no cinema e nas imagens de um modo geral, é impossível a gente ignorar que hoje a gente vive um momento em que o íntimo, ele se tornou cada vez mais público. A pesquisadora Paula Sibilia chama isso de extimo, ou extimidade: aquilo que antes era guardado em segredo, agora precisa ser visto para existir.
[Márcio] Ou seja, não basta a gente viver, é preciso performar quem somos diante de uma câmera. E isso transforma completamente a nossa relação com as imagens do corpo, né? Porque, se antes o gesto de se fotografar nu, por exemplo, podia ser um gesto excepcional, extraordinário, hoje as nudes, os selfies, os vídeos íntimos, eles se tornaram práticas quase cotidianas. O corpo que antes cabia apenas no espelho do banheiro ou na privacidade do quarto, agora circula nas redes.
[Márcio] Ele também disputa a visibilidade. Ele também busca a aprovação e recompensas, ele produz narrativas também, reproduz estereótipos, né? E a tecnologia digital, ela não só, entre aspas, “facilitou” a produção dessas imagens, mas também nos ensina, de certa forma, a olhar para nós mesmos. A gente vai aprendendo ângulos, poses, filtros, aquilo que a gente quer mostrar, aquilo que a gente prefere esconder.
[Márcio] E a cada nude que a gente faz existe um pouco desse exercício de fabular, porque a gente se pergunta: quem sou eu nesse recorte? Quem eu quero ser quando a minha imagem encontra o olhar do outro também? E como construir desejo a partir desse olhar do outro também? E é nesse contexto que o trabalho de André se coloca em um espaço, em um ambiente em que a performance pode se revelar como um ambiente de descoberta.
[Márcio] Em seus ensaios fotográficos, ele acompanha pessoas comuns que desejam experimentar também essa exposição, esse instante de se ver como talvez nunca tenham se visto. Pessoas tímidas, corpos que muitas vezes carregam vergonhas, limites, e quando estão diante de uma lente, de uma câmera, buscam existir à sua própria maneira. Então, para entender melhor essas transformações e como elas atravessam a obra de André, eu pedi a ele que comentasse um pouco sobre essa relação com a fotografia, as selfies, os nudes também.
[André] E eu acho que, quando eu fiz as fotografias, eu ficava muito observando o que que as pessoas… pra que que elas queriam participar ou por que que elas queriam ter aquelas fotos, o que que era aquele lugar que elas queriam habitar, assim. Então, eu acho que inicialmente eu fotografava as pessoas, então era quase uma possibilidade de que as pessoas, entre muitas aspas, “comuns”, elas não tinham a possibilidade de se ver nuas, porque ou você fazia algo que era pago muito caro de você fazer, algo muito escondido ou algo muito…
[André] E eu fiz o momento em que eu fotografava as pessoas nuas e publicava. Nunca foram ensaios feitos só para a pessoa ter. Então, eram as primeiras vezes também que aquelas pessoas estavam se vendo virtualmente, online, despidas. Então era algo que… nem era Facebook, tinha Facebook, mas era, sei lá, época do Tumblr, época de outras plataformas onde as pessoas ficavam nuas.
[André] Eu acho que eu já tinha meu site. Na verdade, não, acho que eu elaborei meu site depois, mas esses primeiros ensaios, daí eu via que as pessoas queriam experimentar. O que é isso? O que é a minha imagem dentro desse contexto? Daí, depois de um tempo, eu comecei a publicar uns ensaios onde tinha umas historinhas, onde eu escrevia um texto referente àquele ensaio, e daí eu vi que as pessoas, algumas, queriam existir dentro daquela ficção também.
[André] Elas queriam também participar não só dos ensaios, mas que também existissem fabulações a partir daquilo, a partir daquelas fotos. Então, quase que queriam pertencer àquele universo que tá ali. E, para mim, eu sempre tive muito interesse — e isso era uma questão — em pessoas que estavam muito acostumadas com a fotografia, o ato de ser fotografada. Eu achava massa pessoas, sei lá, “padrões”, que sentiam muito confortáveis com seu próprio corpo.
[André] Massa, vou fotografar e tal, mas, para mim, elas não revelavam muita coisa. Eu adorava fotografar aquelas que eram muito tímidas, aquelas que entravam num processo muito… porque, para elas, a gente estava tentando construir o que era aquilo, para que a gente estava fazendo aquilo, o que que precisava, que barreira precisava ser ultrapassada. Eu fotografei… eu sou bem obsessivo, assim.
[André] Eu adoro listas. Eu fotografei, sei lá, umas 1000 pessoas, 1500 pessoas ao longo dos anos. E eu tinha esse… eu fui aprendendo o que eram esses registros, o que era quando entra, por exemplo, smartphones, nudes e tal. A gente começa a conhecer um pouco a nossa imagem, a nossa imagem fotografada, a nossa imagem nua fotografada. Então, quando a gente começa a fazer os nudes, a gente já vai reconhecendo, a gente já vai se protegendo, a gente vai encontrando… a gente já vai tendo escolhas.
[André] “Eu me gosto assim, eu não me gosto assim.” Você já vai para a fotografia já com outro tipo de percepção do seu corpo, que é massa também, mas também me cria uma outra dinâmica na fotografia. E a própria ideia de ensaios fotográficos publicados hoje em dia já não tem mais grandes apelos, né? Não tem mais espaço onde as pessoas realmente se relacionam. Tenho medo de ser generalista, óbvio que deve ter diversos espaços, mas não tanto quanto talvez há mais de uma década atrás, antes desse processo.
[André] Então, para mim, era mais uma observação, assim, que daí a pornografia vai explodir em outros lugares. O que varia na sua performance e na sua execução, dentro de um vídeo, dentro de um ato, tem uma continuidade que não são só fotos paradas. O último ensaio mesmo que eu fiz — daí foi para finalizar mesmo — que eu fiz o ensaio, que eram 365 ensaios que eu fiz no ano.
[André] Então, eu fotografei 365 pessoas nuas para ter essa última experimentação de encontros com as pessoas e de ver como cada pessoa se portava ali, qual era o interesse de cada uma dessas pessoas.
[toque de transição]
[Márcio] Quando a gente pensa nas imagens nesse contexto contemporâneo, é interessante a gente observar como elas passaram a funcionar também como um lugar para experimentar a vida, para testar quem a gente pode ser. O pesquisador André Brasil — ele tem um artigo que se chama Formas de vida na imagem: da indeterminação à inconstância — e, nesse texto, ele afirma que a gente vive um tempo em que performance e realidade, elas se misturam o tempo todo.
[Márcio] A subjetividade vira imagem, a imagem passa a ser um espaço de reinvenção contínua, uma zona de experimentação de si mesmo. Realitys, vlogs, vídeos amadores, redes sociais — tudo isso alimenta esse desejo de viver diante da câmera. Ou seja, registrar já não é mais suficiente. A gente precisa transformar o registro numa experiência que coloque o corpo em jogo, que arrisque, que invente formas de habitar o mundo, né?
[Márcio] E, nesse texto, André defende que essas formas da imagem criam algo como um espetáculo sem simulação, onde o artifício não necessariamente é oposto ao real, mas ele permite que esse real transborde e, de certa forma, escape ao controle. Então, é curioso como essa lógica se conecta às práticas de artistas que vão usar a performance como um método de vida.
[Márcio] No caso do nosso convidado, cada ano passou a ganhar um ritual específico, uma ação simples que, às vezes, quando é repetida em série, se transforma em uma obra. Na série Fetiches, por exemplo, ele registrou uma série de 100 vídeos com pessoas que realizam 100 fetiches diferentes. Na série Banhos e Tortadas, ele convida pessoas diversas para dar banhos e tortadas na cara.
[Márcio] Na série Palhaços, ele fotografa um conjunto de pessoas vestidas e maquiadas como palhaças das mais diversas cores e formas. Então, performances como essas vão instaurando dispositivos: ao número de fotos, de registros a ser alcançado; ações que vão guiando o gesto. Existe uma duração aproximada que é definida, mas também vai existir o risco do fracasso. Vão existir as negociações e consentimentos, vai existir a exposição e aquilo que se quer esconder também.
[Márcio] Mas também há algo de terapêutico, uma forma de lidar com o tempo — com o tempo que muda, com o corpo que também se transforma. E, com isso em mente, eu pedi que ele falasse um pouco sobre como surgiram essas performances registradas através da fotografia.
[André] Só… a proposta inicial foi: eu ia fazer 41 anos e, para mim, eu falei “Eu não quero ter um problema com o avançar da idade. Eu não quero que isso vire uma crise na minha história: ter 41, ter 42, ter 43.” E daí eu percebi, ao longo de décadas, depois de fazer tanto isso, que a performance me ajudava a viver. Ela me ajudava a construir estratégias, dispositivos para viver bem, para ter uma relação saudável com a minha obra, com o mundo, com o outro e afins.
[André] E daí, com 41, faltando cinco dias para eu fazer 41, eu estava bem no momento em que eu estava gravando muitas coisas pornôs. Eu falei: “Já sei, vou gravar 41 pessoas, eu mamando 41 pessoas.” Eu entrei em modo performance, onde eu fiquei procurando. Eu ficava o dia inteiro, porque eu tinha que conseguir, em média, oito, nove pessoas para mamar por dia.
[André] E não era só a ideia de mamar. Você pode ir a algum lugar, sei lá, vai fazer banheirão, você consegue mamar. O problema é você gravar. Tipo, eu tinha que conseguir pessoas que autorizassem que eu gravasse tudo isso. Então eu fiz esses cinco dias, maratona performance de longa duração, e daí, a partir desse, eu falei que eu ia fazer uma série que ia durar dez anos.
[André] Onde eu coloco essa expectativa de que tem a ver com um número de pessoas no meu aniversário e algum verbo que tem a ver com o corpo. Eu fiz esse primeiro mais explícito, mais sexual, mas daí, depois, com 42, eu dei banho em 42 pessoas. Com 43, eu dei tortada na cara em 43 pessoas. E, para o ano que vem, que eu vou fazer 44, eu estou fazendo as massagens.
[André] Devem faltar só nove massagens onde eu estou realizando massagem nas pessoas, e, para mim, eu fico muito feliz de chegar no ano que vem, nos 44, que eu vou finalizar essa performance. Eu não fico desesperado: “Ai, meu Deus, no ano que vem 44.” Eu tô empolgado de pensar em chegar em 50, porque eu vou ter finalizado esses encontros. Então, a princípio, é uma estratégia pessoal terapêutica na minha vida, mas que vai de encontro com caminhos que eu acho muito maravilhosos para a vida.
[André] Encontrar as pessoas, dividir experiências com as pessoas. Nessas específicas, eu coloco situações onde eu não estou acostumado. Então, sei lá, fui dar banho nas pessoas. Não é comum, a gente não sabe dar banho. A gente… ou a gente é um cuidador, ou dá em alguém que está doente, ou quando a gente tá novinho, numa criança, ou até na relação sexual
[André] é um banho meio pegação; não é “dar banho”. E a proposta foi dar banho nas pessoas. Não tinha uma conotação sexual, de “a gente ia se pegar antes ou depois”. Eu queria dar banho. E como são esses dois corpos dentro de um box, onde eu vou dar banho e você vai receber? Então, para mim, eram experiências e que têm um prazo também de acabar, que eu gravei, e esse acabou.
[André] Agora eu tô a fazer as massagens. As massagens, pra mim, são super difíceis porque eu não tenho técnica de fazer massagem. Eu fui aprendendo ao longo do tempo a fazer essas massagens, mas massagens são difíceis, e não é algo que eu morro de prazer — de fazer massagem nos outros. Então, pra mim, foi um exercício que eu vou: “Ufa… vamos lá… mais um… mais um…”
[André] Mas acho que, quando eu falo que tudo é atravessado pela performance, é um pouco isso. A performance traz esse dispositivo inicial: você cria um dispositivo, você cria uma frase que identifique o que vai ser a performance, e você coloca o seu corpo e experiência naquela relação. Hoje em dia, acho que depois de tanto tempo que eu faço, existe um grupo específico de pessoas que conhece o que eu faço, e daí eu consigo ter uma adesão ao projeto.
[André] Mas eu não tenho… não é uma coisa assim, que eu lanço: “Ai, todo mundo está querendo participar.” Não. Para eu conseguir 50, eu falei com 500. Então, tipo, é um trabalho gigante. É um trabalho em que eu vou ali, vou ali, vou ver com quem eu falo, [inaudível], divulgo e faço tal e tal. Mas tem a ver com as minhas obsessões também, tem a ver com as minhas… o que me interessa.
[André] Mas eu acho que tem esse… esse… trabalhando para Janaína, né? Eu já trabalho com a Janaína já há alguns anos. Ela tem também esse interesse pela ideia do obsceno, que é a ideia do que está fora da cena. Então, pensar que tudo que é tido como obsceno é algo que vaza, não é algo que é só controlado naquele espaço.
[André] Então, ter algo, por exemplo, sei lá, até de uma cena de sexo explícito — o que que é obsceno dentro dessa cena? Talvez o sexo, a penetração, não seja o mais obsceno dentro da lógica que se propõe ali, mas algo que revela além daquilo. Então, para mim, essas outras coisas que eu vou ficando atento, até na construção dos meus filmes, é tipo: o tal filme está acontecendo ali, o sexo explícito está acontecendo ali.
[André] Mas tem alguma coisa que está vazando além daquilo que me interessa — o que está fora do quadro — e todos esses projetos, eu vou ficando meio atento ao que ele revela, sabe? Dentro e fora da cena.
[toque de transição]
[fala em inglês não compreendida]
[Márcio] Quando alguém decide se colocar na imagem, esse gesto nunca é simples. Existe uma longa história do documentário brasileiro que, por muito tempo, tratou o íntimo como algo menor ou até como uma espécie de desvio diante das grandes questões coletivas. Mas quando a gente olha com atenção, a gente percebe que, mesmo nos registros mais cotidianos, como os próprios filmes de família, já existe ali um desejo profundo de preservar aquilo que a gente não quer perder, né? Os afetos, os vínculos, as intimidades.
[Márcio] O pesquisador Roger Odin, ele observa como esses registros, os filmes de família, eles funcionam como operadores de consenso. Isso, nas palavras dele: eles não mostram conflitos, eles escondem tensões, eles selecionam o que deve permanecer como imagem ou imaginário da família. E, em obras autobiográficas, a câmera pode ocupar esse mesmo lugar ambíguo: revelar, proteger, lembrar e inventar. E é nesse cruzamento que se inscreve o longa Alfredo Não Gosta de Despedidas, que é o primeiro longa de André, e é um filme que parte da elaboração do luto pela sua mãe para compreender a sua relação com o sexo e com as imagens pornográficas.
[Márcio] E, a partir dessas escolhas, o filme vai tensionar convenções, incorporando o corpo e o desejo em cena, misturando registros familiares com essas experiências performativas. E, desse processo de construção, eu pedi que ele falasse um pouco como foi fazer esse filme, o que é que ele sentia que estava em jogo ali, naquele processo.
[André] Eu acho que tem uma aproximação que eu tenho, que eu falei, eu comentei da Janaína agora, mas o movimento que acontece no teatro, acho que a Janaína tem essa pesquisa inicial no livro dela, por exemplo: Autoescrituras Performativas, a ideia da autoficção. Então eu comecei a me aproximar e observar as pessoas que estavam fazendo isso no teatro e, bem no momento em que eu comecei a gravar esses filmes pornôs, e que eu já tinha… eu acho que eu tinha uma desculpa perfeita: que eu comecei a fotografar as pessoas peladas depois que minha mãe morreu. Então parecia que tudo se explicava ali, tipo “ah, ele faz isso porque a mãe dele morreu”.
[André] “Ah, ele tá nesse processo por causa da mãe dele”, e era quase um fetiche das pessoas também falarem isso. Como já está definido, já está definindo a história dessa pessoa, é a morte de um familiar, de uma pessoa muito importante ali, que faz ele desenvolver tudo isso. E eu não estava contente com essa definição. Eu falei: não pode ser só isso. A vida, ela não vai ser definida por uma ação.
[André] Sim, foi um ponto de partida. Mas ela não é só isso. E daí, quando eu comecei a olhar para o material que tinha, eu falei “é, tem que ser sobre essa mãe, esse filme, essa vontade inicial tem de ser sobre essa mãe”. Mas eu queria ir fazer essa investigação. Eu queria descobrir o que era isso. Aí, quando eu falo que ele tem um lugar mais performático, do que é o lugar tradicional do cinema, é óbvio que diversos documentários…
[André] Diversas obras, até ficcionais do cinema, são construídas dessa maneira, mas que, para mim, eu tinha uma outra aproximação com a performance, não com o cinema, que era esse lugar de que eu fui criando pequenos dispositivos. Eu estava num momento em que eu não queria participar do filme, então eu falava: a minha imagem, a imagem eu transando, é o máximo que eu queria que existisse ali, mas que eu não queria aparecer a minha cara falando sobre as histórias.
[André] Então eu tinha essas escritas e daí eu pedi para amigos: “ah, vocês podem falar?” Amigos atores: “aí, vocês podem falar…?” E daí, depois que eles falavam esses textos, eu começava a perguntar coisas para eles sobre o texto e sobre coisas da vida deles, e encaixava em todos os sentidos. Assim, então muitas pessoas que estão falando lá nem estão falando de mim, estão falando delas.
[André] Só que é tudo encaixado e parece que é tudo sobre a minha história, tudo sobre o que eu acho… sobre essa mãe, enfim. Então tem essa divisão do filme, que basicamente são os familiares. Então eles, sim, estão contando a história. Meu pai, minha tia, minha irmã e minha sobrinha são aquelas quatro pessoas da família. E todos os outros atores…
[André] É essa busca de eu não querer participar. Era mais simples assim, o pretexto. Nem foi algo super elaborado, onde eu tive uma grande ideia. Foi só: “não quero aparecer, amigos, posso gravar vocês?” E, a partir dali, quando eu começo a editar o filme, eu falo: a gente tem muita coisa que eles estão falando, que até a própria naturalidade da voz, como que eles fazem aquele texto que eu acho interessante para existir nesse filme.
[André] Como que a gente vai montando as nossas histórias, as histórias gerais das pessoas, né? E daí tinha um que antes não era tão, tão claro para mim: a ideia do sexo explícito no meio disso tudo. Eu jogava meio irresponsavelmente, assim, algumas cenas assim. Eu falava: “ai, eu quero ver o que é isso, quero ver o meu pai falando isso enquanto eu estou chupando um pinto”, sabe?
[André] Quero entender o que é esse material. Mas não era muito. Ele era irresponsável mesmo. Era um lugar irresponsável que eu olhava para isso e só experimentava. Depois, quando ele foi lançado, o filme, e eu fui observando algumas críticas que as pessoas faziam, eu falava: “é, isso tem a ver com a minha irresponsabilidade”. O lugar… tem uma cena específica que eu conto do meu pai.
[André] O meu pai tinha mijado no diário meu. E daí tem uma cena que uma pessoa faz xixi em mim. E daí saiu uma crítica de uma pessoa próxima que falava que parecia [inaudível], um lugar de tipo “ai, é sofrido e daí usa a pessoa urinando nele como um sinal de, sabe, de algo horrível, de algo…” E, para mim, foi feito de uma maneira muito boba, inconsequente, assim.
[André] Era um amigo que fazia uma cena de xixi em mim numa peça. Ele estava gravando aqui. Eu falei: “Ah, Matheus, toca violão, você aí, faz xixi em mim.” E eu gravei aquela cena. Eu não sabia que música que era. O Matheus tocou a música melancólica. Não fui eu que pedi uma música melancólica. A outra pessoa fez xixi e, daí, na hora que eu estava editando o filme, eu vi: “Ah, está contando uma história de xixi aqui, deixa eu juntar as duas.”
[André] Mas é esse lugar de uma inexperiência minha também, de eu falar: é óbvio, esta estética específica, essa linguagem específica. Quando você junta isso com aquilo, talvez ela vá dar essa interpretação. Mas, para mim, não era consciente, nada disso. Era um fluxo que eu ficava… Hoje em dia, o Alfredo, eu tenho algumas dificuldades de ter ele enquanto obra, porque eu ficava…
[André] Eu gosto dele, eu não tenho vergonha dele, mas é uma questão onde eu falo: “Nossa, essa escolha aqui”, ou umas coisas que eram meio currículo, algumas coisas que eram meio… E, daí, eu observo ele e falo: “Não, mas ele tem a ver com aquele primeiro movimento, o primeiro olhar para esse material, estar experimentando.” Então ele tem uma função experimental, assim, para mim, tentar entender e, principalmente, a ideia do sexo explícito, porque algumas pessoas… Também, eu fazia algumas sessões guiadas que depois eu conversava com as pessoas, o que que elas achavam, e quase que não precisava existir o sexo explícito. Se tirassem o sexo explícito, para elas seria…
[André] A história de uma mãe, uma história de uma vizinha que conta a história de uma vizinha. Mas eu falava: “Esse filme só existe por causa do sexo explícito.” Isso eu queria entender: como são vocês dentro de uma sala de cinema vendo tanto sexo explícito enquanto está sendo contado… Qualquer história poderia ser da minha mãe, poderia ser de outra coisa, poderia ser qualquer coisa.
[André] Mas o que é a experiência de ver tanto sexo explícito sem ser no espaço pornográfico onde você está se masturbando, sem ser no espaço… E também não são cenas belíssimas de contemplação. É um sexo que está ali enquanto você está contando uma história. Então tinha esse exercício também ali.
[toque de transição]
[Márcio] Muito do que a gente chama hoje de cinema autobiográfico nasce desse movimento. O gesto de revisitar rastros e, com eles, construir uma narrativa que não se limita ao que já estava dado. Essa relação com o passado, ela implica, frequentemente, em pensar o familiar como um ambiente de tensões culturais que são mais amplas, né? Identidades, origens, migração, vínculos afetivos, relacionamentos abusivos, complexos, em filmes como Assistindo a Dor dos Outros, de 2019, e Nelson, também de 2019.
[Márcio] Existe uma dimensão contemporânea que amplia esse jogo: o desejo de transformar a própria intimidade em uma experiência audiovisual vivida no presente. Em muitos filmes recentes, não se trata apenas de revisitar a memória, mas também de performar essa memória, atualizar essa memória, vivê-la dentro da câmera. E é nesse território que se inscreve o filme Alfabeto Sexual. Aqui, o arquivo já não é algo encontrado depois, mas parece produzido no calor da relação.
[Márcio] A câmera não aparece apenas como uma testemunha, mas ela funciona como uma parte ativa do cotidiano amoroso. Ela cria tensões, afeta diretamente aquilo que está registrando. Nesse filme, o relacionamento de André com Hudson é o centro da cena, mas não como um romance idealizado. Nesse filme, tudo vira dispositivo: as performances sexuais, os acordos do casal, as crises, os ciúmes, as estratégias de registro. E é sobre essa elaboração que eu pedi para André falar um pouco mais.
[André] Mas eu acho que foi tudo muito, não só encaixado, mas eu acho que teve um próprio amadurecimento, porque no final, quando eu estava finalizando o filme Alfredo, eu conheci Hudson. Então ele aparece no finalzinho do filme do Alfredo, ele já aparece. Foi bem o início do nosso romance, e a minha história com o Hudson foi muito importante porque eu acho que o Hudson, ele trouxe a ideia do sexo para dentro do casamento.
[André] Nós éramos casados, nós vivíamos juntos, e ele já… ele me conheceu exatamente no ano em que eu comecei a gravar pornô. Então ele já me conheceu fazendo isso e ele adotou isso também como uma prática nossa, assim. A ideia de ter as cenas gravadas explícitas era uma prática nossa, fazia parte do nosso relacionamento. E daí, em algum momento, passados alguns anos do lançamento do Alfredo, eu lembro que… não, eu acho que…
[André] Quando a gente lançou, quando lançou o Alfredo, eu já estava casado com o Hudson, a gente já morava juntos. E daí, depois de alguns anos — foi exatamente isso — um pouco antes de começar a pandemia, eu falei para ele que eu achava que caberia eu desenvolver um segundo filme. E foi justamente ali que surgiu a ideia de uma possível trilogia, porque eu falava que era a ideia da trilogia sexual da classe média.
[André] Então tem a ideia de família, relacionamento amoroso, e o terceiro que eu estou desenvolvendo são pets. Então a ideia dos cachorrinhos ou romances [risos]…
[André] E de como que traz isso. E daí, o primeiro, ele tem uma estrutura um pouco de um drama familiar, e o segundo eu queria que tivesse a estrutura de um romance. Então ele inicia, ele mostra como essas pessoas se encontram, elas se namoram, elas se apaixonam e daí vem o conflito. E desse conflito… e desse conflito, como superam. O enredo tradicional de um romance, só que com ele tinha uma relação específica que eu acho que ali eu tive que amadurecer.
[André] O da minha mãe eu pude ser mais irresponsável. Com Hudson eu não pude, porque o da minha mãe era um registro de passado, era algo que já tinha acontecido. Mesmo que as pessoas contassem as histórias, elas estavam vivas ali, contando a partir do momento ali. O Hudson, ele estava na minha casa, a gente morava junto, na nossa casa. Então como que eu ia registrar os nossos conflitos?
[André] Não tinha uma maneira de eu ficar gravando, não era um Big Brother. Assim que eu colocava a câmera para pegar a qualquer momento nosso… Todas as cenas do Alfabeto, elas são gravações, [inaudível] “Para e eu vou gravar, vou falar com você agora.” E eu tive que encontrar estratégias para o Alfabeto acontecer. Então uma delas, que é um meio que eu sempre faço e que eu gosto muito, que eu participo de laboratórios autorais onde tem outras pessoas com outros projetos.
[André] Então a Janaína já fez… outras pessoas… Essa eu tava com Erica Montanheiro e com o Eric Lenate, que eram outras pessoas que estavam nos projetos, e a cada semana você tinha que mostrar algo do seu projeto e as outras pessoas falavam sobre ele; na outra semana a outra pessoa mostrava. Enfim, isso fazia com que eu experimentasse as coisas do filme.
[André] Então levava os primeiros 20 minutos, onde mostra a relação toda, e as pessoas comentam. E daí ali eu comecei a buscar estratégias de como que eu poderia elaborar o filme do Alfabeto. E quando chega no momento da crise, eu falei: “Eu vou editar de uma maneira manipuladora.” E eu sabia que isso iria trazer um conflito para Hudson, de que “você só está mostrando o seu lado, e você está se colocando como vítima, e você está colocando…”
[André] E daí eu vou gravar essa reação dele, porque eu estava também manipulando a própria reação dele, porque era a única maneira de eu conseguir tirar o que ele poderia ter. Então a própria edição — assim, eu que editava — conseguia trazer camadas para o meu relacionamento com o Hudson. E depois disso, o próprio núcleo dos laboratórios autorais trazia isso também, porque tem um momento no filme que o Hudson é despedido de um trabalho que ele estava, e no dia seguinte eu tinha esse laboratório.
[André] Eu falei para ele: “Você topa ir lá no laboratório e as pessoas do núcleo entrevistarem você?” Então tem as pessoas desse laboratório entrevistando ele no dia seguinte que ele foi despedido. Então, uma estratégia que eu fui usando para não só ele contar para a gente, não só contar a nossa história — “Ah, aconteceu isso, aconteceu isso…” — tem um outro… tem um outro estado de presença, porque ele estava agora,
[André] acabou de acontecer, num espaço onde outras pessoas que ele não conhecia estavam perguntando para ele o que tinha acontecido ontem. Então eu acho que, dos dois filmes, eu vou buscando essas estratégias de como pode vazar algo que não seja um espaço controlado. Só eu entrevistando a outra pessoa, sabe? Como é que isso pode… E eu acho que no Alfabeto já teve já um pensamento de que a própria engrenagem do Alfabeto, eu tinha que pensar muito o que significava uma cena com a outra. Eu tinha que já elaborar para ele acontecer, porque o relacionamento estava acontecendo naquele momento.
[Toque de transição]
[Márcio] Quando a gente fala de pornografia, é comum que o debate fique preso a uma lógica de culpa, risco ou de efeito moral, como se o pornô existisse apenas como uma ameaça ou como um desvio. Mas, quando a gente se aproxima desse universo com mais cuidado, o que aparece é outra coisa. É um campo muito complexo de imagens, de discursos e de práticas que também fabricam modos de ser, de desejar e de se enxergar no mundo.
[Márcio] Alguns pesquisadores têm mostrado como a pornografia funciona, entre aspas, de maneira pedagógica — não no sentido escolar do pedagógico, mas no sentido de ensinar certos códigos, certos comportamentos também. Quais corpos são desejáveis? Quais não são? Quem pode ocupar certas posições sexuais, do ativo ou do passivo? O que é lido como viril? O que é lido como o feminino?
[Márcio] O que é visto como desejado? O que é visto como objeto? Com a internet, esse cenário se torna ainda mais intricado. O pornô online passa a ser pensado como um dispositivo. Não é somente o consumo do vídeo em si, mas o site, os algoritmos, as categorias, os comentários, os rankings, os links… tudo isso cria uma interação com o usuário, convida a acreditar que ele está no controle do próprio desejo, ao mesmo tempo em que o empurra para um modo muito específico de ver e de performar.
[Márcio] E é dentro desse ecossistema que a obra do nosso convidado circula — mas em atrito com essa lógica também. Ao mesmo tempo em que seus vídeos e filmes ocupam festivais de cinema, mostras, eles também podem estar em plataformas como Xvídeos, né? Onde chegam espectadores que acabam, às vezes, atravessados por algo que não esperavam naquela plataforma. E foi justamente sobre essa circulação que eu quis ouvir um pouco mais, André.
[André] Eu acho que tem uma… e que é natural, faz parte da nossa formação, que a gente decupar tudo e colocar cada coisa no seu espaço. E é natural. A gente talvez… é como a gente consegue se organizar e como a gente aprendeu a se organizar. E quando eu falo, quando eu falei no começo, essa tendência escorregadia, essa tendência minha à quase irresponsabilidade, tem um pouco a ver com isso, porque eu vou colocando… não é um projeto assim, onde eu falo:
[André] “Não, o que eu quero é chocar aqui. O que eu quero é provocar essa plataforma.” Não. Eu olho o material e falo: “Tanto esse vídeo… sei lá, eu gravei glory holes, eu mamei um monte de pau… eu falo: eu queria falar algumas coisas durante. Daí eu vou pegar o vídeo e vou gravar eu falando uns contos durante.” Mas sei que alguém no Xvídeos vai falar: “Ai, que chatos essas falas, eu queria só ver esse pau e bater punheta pra esse pau.” Tudo certo também.
[André] Tipo, então tira o áudio… é muito lugar despretensioso, desse… o que me dá vontade. O que me dá vontade. Falo: “Oh, vou fazer isso daqui. Vou fazer nesse lugar.” E determinados materiais, eles… eles… por exemplo, por ter muita nudez, o meu site não… ele não suporta vídeos, muitos vídeos, então tive que encontrar uma plataforma que eu conseguisse colocar no meu site.
[André] Então o Xvídeos é o único lugar, quase, que tenho pra subir todos os vídeos, e daí eu coloco o link no meu site. Daí ele está anexado ali. Quase não existe sistema muito conhecido de plataformas pra eu subir esse material. Então o Xvídeos é. Mas eu gosto muito de quando isso acontece: já tem, sei lá, mensagens, comentários no Xvídeos. É isso aí.
[André] “Comecei a bater punheta e terminei chorando porque eu estava tipo…” [risos] “O vídeo começou a me levar pra outros lugares e começou…” Ou pessoas irritadas: “Digo, tava aqui… que caralhos? Estragou a minha punheta!” E tá tudo bem. É isso. A gente está nesse lugar. Mas talvez não seja um lugar tão manipulado, sabe? “Eu vou fazer isto.” E aqui o que eu falei da cena do violão.
[André] Essa cena do violão aconteceu porque eu tinha alguém aqui que tocava violão e tinha alguém que fazia xixi, ou tinha alguém fazendo sei o quê. Então essas propostas, até no próprio filme com Hudson, o Alfabeto Sexual, têm muitas experimentações que a gente fazia. Então era tipo eu pintado de Mística e o Hudson… a gente de X-Men, sabe? Que era uma coisa super tosca, super meio brochante.
[André] Não era ideia ser um meme ou a ideia de ser engraçado. Era só: “Eu… vamos fazer o X-Men”, e daí a gente faz. É óbvio que isso causa um “Por quê? Por que que existe? Pra que que você está publicando um negócio desse?” Porque faz sentido pra mim dentro daquele contexto. Em alguns lugares vai fazer mais ou menos, e alguns vídeos não têm maior adesão e as pessoas, em conjunto, falam: “Ah, tá. Isso tem o porquê existir.”
[André] E às vezes não vai fazer sentido nenhum pra outra pessoa: “Por que esse filme tá ali? Por que esse filme existe?” Mas daí é a questão da pluralidade, né? [risos] A gente tem muitos caminhos de existir, a gente tem muitas lógicas de “pra que fazer isso tudo”. Em algum momento, talvez seja muito distante. Talvez seja até a própria ideia do fetiche.
[André] Quando eu comecei a pesquisar, o fetiche me trouxe isso de maneira muito maravilhosa, intensa. A ideia da pluralidade na ideia de que sempre vai existir coisas que são estranhas pra gente. Sempre vai existir um limite, e a gente sempre vai se tornar aquela pessoa que fala: “Nossa, mas que estranho…” “Nossa, mas isso será que não é um problema?”
[André] Ou é tirar sarro ou tirar… tudo o que fizeram com a gente, de alguma maneira a gente reproduz com as outras pessoas também. E daí? Isso é um nó da diversidade. Assim, tudo que é diferente, a gente… a gente não sabe lidar. A gente acha que a gente tem que saber lidar o tempo inteiro. Não, é algo novo que chegou dentro de um espectro de possibilidades de vida que a pessoa teve.
[André] Chegou algo novo. Daí cabe a você: tem uma rejeição, não quer nem saber, quer só ridicularizar, ou só… meu corpo não quer praticar, mas tem uma outra pessoa que pratica. Não vou consumir esse material, mas tem outras pessoas que talvez queiram. Mas tem esse limite, que eu acho que é bonito. De alguma maneira a gente consegue pensar nessas possibilidades.
[transição]
[Márcio] Quando a gente olha para a história recente do documentário brasileiro, fica evidente que o cinema passou a ser, cada vez mais, um espaço para colocar em jogo a própria subjetividade. Como observa Ilana Feldman na sua tese Jogos de Cena e Ensaio, sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Esse movimento aparece em filmes que atravessam a performance de si, a autoficção, as práticas confessionais, valorizando o processo, o ensaio, o risco.
[Márcio] Estes gestos têm tudo a ver com o tempo que a gente vive, os dispositivos que vão incentivar a visibilidade contínua, corpos que vão aprender a performar para a câmera, subjetividades que são construídas diante da tela. Então, em alguma medida, produzir imagem também se tornou um produzir a si mesmo, né? E o cinema autobiográfico, então, deixa de ser apenas um relato do passado.
[Márcio] Ele pode se tornar também experiência presente, não só registrar ou falar daquilo que se viveu, mas aquilo que se inventa agora, no encontro com o outro, com o desejo, com a câmera. Então há algo de muito potente nisso: assumir que a gente não está pronto, que a gente está sempre em processo, que nossas histórias podem ser contadas de múltiplas maneiras.
[Márcio] E André expressa isso de forma muito direta na sua obra, na sua vida. Seus filmes e as suas performances vão partir do corpo, do afeto e do fetiche para afirmar que existem múltiplas possibilidades de existir no mundo.
[André] Eu acho que existem milhares de possibilidades de a gente estar um pouquinho melhor na nossa vida, pensar um pouquinho melhor. A gente se enreda em lugares que são muito difíceis para a gente viver, porque realmente a estrutura que a gente vive é muito difícil. Mas além de, tipo, quando eu comecei a trabalhar com fetiche, eu falei: “Gente, tem milhares de pessoas sofrendo porque talvez o sexo penetrativo, talvez determinada coisa não a contemple, ou ela se sinta mal na execução disso.”
[André] Elas perceberam que existem mil outras possibilidades, ou vai ficar sempre batendo naquele mesmo lugar, falando: “Eu não sou boa, eu não sou boa, eu não sou bom aqui.” Existem milhares de possibilidades, e eu acho que, para mim, a vontade que eu tenho e as coisas que eu vou promovendo, que eu vou, não sei o quê… é só de, primeiro, de maneira egoísta, conseguir viver eu, bem feliz com as opções que eu tenho, com as coisas que eu tenho. E, mais, de alguma maneira também, por eu fazer o meu projeto, o meu trabalho ser com muitas pessoas, pode ter muita coisa que a gente pode experimentar, ter muita coisa que a gente pode…
[André] A nossa história pode ser contada de diversas maneiras. Eu fiz psicanálise durante muito tempo. Acho incrível, é necessária a terapia, mas o que o filme, por exemplo, me proporcionou enquanto possibilidade de reescrever a minha existência foi, tipo, imenso também. Assim, nem sei se tantos anos de psicanálise chegariam nesse lugar que eu cheguei no filme. Então foi um outro trajeto de ficção, de fabulação da vida que me fez conseguir: “Nossa, a relação com meu pai, a relação com a minha mãe, a relação com o familiar, a relação com o meu ex…”. O término com meu ex foi mil vezes melhor do que os outros términos que eu tive, justamente porque a gente foi capaz de fabular daquela maneira e conseguiu olhar para nossa vida daquela maneira.
[André] Então acho que, sei lá, não é só um privilégio meu, mas é uma tentativa de fazer com que nós todos consigamos olhar o mundo e olhar as nossas práticas. [inaudível] Não é só autoajuda, mas é uma coisa real. Se a gente está só no mesmo caminho, sofrer, bater a cabeça, batendo a cabeça, falar: “Caralho…”. Tem muitas outras possibilidades para a gente melhorar minimamente nossa vida, nossa existência.
[Transição]
[Márcio] Isso me lembra um trecho da tese feita pela pesquisadora Mariana Duccini Silva, intitulada Ponto de vista a(u)torizado: composições de autoria no documentário brasileiro contemporâneo, em que ela vai abordar como as grandes narrativas, aquelas que pretendem explicar o mundo a partir de posições totalizantes, entraram em crise ao longo dos séculos. Diante disso, vai crescer a busca por estratégias autorais que vão investir no testemunho, na vivência, no envolvimento pessoal.
[Márcio] A ideia de realidade hoje, ela se aproxima dessa aposta no subjetivo, fragmentado, no íntimo, no imperfeito, mas sobre aquilo que é verdadeiro também enquanto experiência. Isso explica por que tantas obras brasileiras recentes reivindicam a presença do autor na cena, assumindo o risco de soar amador, incerto ou de trazer algum desequilíbrio, porque justamente aí é que pode surgir um outro tipo de verdade, aquela que vai se construir no encontro entre quem filma e aquilo que esse sujeito filma.
[Márcio] Então, performance, pornografia, cinema são, no final das contas, maneiras em que a gente pode fabular outras versões da gente mesmo e transformar aquilo que parecia impossível de enfrentar.
[Toque]
[Márcio] Bom, pessoal, esse foi mais um episódio de F(r)icções, mas ele não termina aqui. Para você desdobrar os temas debatidos nos podcasts e conhecer outros conteúdos do projeto, é só acessar o nosso site friccoes.com, o nosso Facebook facebook.com/friccoes, o nosso Instagram @fric.coes. Para quem quiser desdobrar os temas debatidos nos podcasts e conhecer outros conteúdos do projeto, é só acessar o nosso site. Friccoes.com, sem cedilha e sem til, assim como nosso Facebook facebook.com/friccoes, nosso Instagram @fric.coes, ou manda e-mail pra gente no projetofriccoes@gmail.com.
[Márcio] No roteiro e apresentação, eu, Márcio Andrade; na edição, Priscila Nascimento; na produção, Janaina Guedes; na coordenação geral da revista, eu, Márcio Andrade. Esse projeto é uma realização da Combo Multimídia e conta com incentivo da Lei Paulo Gustavo, através do Edital Geraldo Pinho da Prefeitura do Recife. Até mais, pessoal!.
