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Podcast 21 | Rascunho em Primeira Pessoa – Autoria, Quadrinhos e Cinema em Memórias de um Esclerosado

dez 26, 2025

Neste episódio do podcast F(r)icções, o editor-chefe Márcio Andrade conversa com o quadrinista e cineasta Rafael Corrêa sobre autoria, autobiografia e os atravessamentos entre quadrinhos e cinema.

A partir do filme ‘Memórias de um esclerosado’, a conversa percorre temas como pacto autobiográfico, humor gráfico, fragmento, doença, exposição de si e a passagem do gesto individual para a criação coletiva.

O episódio reflete sobre como a escrita em primeira pessoa se reinventa ao transitar entre linguagens, tensionando controle autoral, acaso e partilha da experiência no encontro com o outro.

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Ficha Técnica
Roteiro e Apresentação – Márcio Andrade
Edição – ⁠Priscila Nascimento⁠
Produção – ⁠Janaína Guedes⁠
Arte de Capa – Paula K
Edição de Materiais Gráficos – Rodrigo Sarmento
Coordenação Geral – Márcio Andrade
Realização – ⁠Combo Multimídia⁠
Incentivo – Lei Paulo Gustavo – Edital Geraldo Pinho (Prefeitura do Recife)

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Referências

LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. 2ª ed. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2014.

MONDZAIN, Marie-José. A imagem entre a proveniência e a destinação. In: ALLOA, Emmanuel (org.). Pensar a imagem. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

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Transcrição

Márcio

Olá, pessoal, meu nome é Márcio Andrade e esse é o F(r)icções. Esse é um podcast que integra um projeto de pesquisa sobre as diversas formas de escritas autobiográficas e autoficcionais no campo do cinema e do audiovisual. Além do podcast, a revista digital conta com um conjunto de ensaios e de vídeo-ensaios que abordam as escritas de si em diferentes formatos: a carta fílmica, o ensaio, a autoficção, a autoetnografia.

Márcio

A partir desses diversos ângulos, a gente pretende compor um panorama das reflexões mais recentes em torno da escrita em primeira pessoa e as suas variadas modalidades. E o tema desse podcast é rascunho em primeira pessoa: autoria, quadrinhos e cinema. Em Memórias de um Esclerosado.

[Trilha de transição]

Márcio

Quando a gente fala de autobiografia, é quase inevitável retornar às formulações de Philippe Lejeune e à ideia do pacto autobiográfico como um acordo implícito entre quem narra, quem vive e quem escuta ao ler. Para Lejeune, autobiografia, ela é uma narrativa retrospectiva que vai organizar a vida a partir de um presente de enunciação, de fala, de escrita. E é nesse movimento que se constrói a chamada gênese da personalidade, onde lembranças, silêncios e escolhas narrativas, elas vão compor uma imagem possível do sujeito de si.

Márcio

Quando a gente desloca essas reflexões para o campo das imagens dos quadrinhos e do cinema, o pacto autobiográfico, ele se torna ainda mais instável e, por isso mesmo, interessante. Afinal, não se trata apenas de dizer eu, mas sim de desenhar, de enquadrar, de montar e, afinal, escolher o que mostrar e o que esconder. Então, a autobiografia, ela deixa de ser somente um texto e passa a ser um modo de organizar a própria experiência em imagens e ritmos e enquadramentos também.

Márcio

É a partir dessas tensões entre o que é experiência vivida, o que é construção narrativa e o que é autoria que esse episódio vai se organizar. Porque, quando a gente pensa a autobiografia hoje, a gente está pensando também como diferentes linguagens, como a arte sequencial e a imagem em movimento, elas podem ampliar as formas de elaborar a nossa própria história.

Márcio

E é nesse ponto que a gente vai chegar na trajetória do quadrinista e cineasta Rafael Corrêa, porque é uma trajetória bem instigante. O trabalho de Rafael articula humor e autobiografia, transformando a experiência pessoal em narrativa gráfica e, mais tarde, em filme, sempre negociando os limites entre esse controle autoral e a criação coletiva. E eu convidei Rafael para essa conversa a partir de uma sessão do filme Memórias de um Esclerosado, que ele dirige junto com Thaís Fernandes e aborda justamente o convívio de Rafael com a esclerose múltipla.

Márcio

Eu assisti esse filme em Vitória do Espírito Santo, durante a Mostra Sesc de Cinema, porque o meu curta “Lá na frente”, ele também tinha sido selecionado para ser exibido lá. E, para iniciar essa conversa, eu pedi a Rafael que ele comentasse um pouco sobre o seu encontro inicial com os quadrinhos.

Rafael

Eu sou artista desde criança. Eu adorava ler quadrinhos, então eu comecei a desenvolver essa linguagem desde muito cedo. A uns 14 anos já aplicava no jornal da cidade, fazia quadrinhos e sempre com a temática do humor, influenciado por Laerte, Asterix, enfim, esses quadrinhos que chegavam até mim, né? Mas eu sempre quis fazer cinema também. Sempre foi uma vontade minha trabalhar com audiovisual, com desenho animado.

Rafael

Só que o quadrinho foi tomando uma grande proporção e, por ser mais fácil, uma arte que não depende de equipamento, só um lápis e um papel, tu já pode criar toda uma história. Então, eu acabei me dedicando mais ao quadrinho e, quando eu vim para Porto Alegre, eu conheci o pessoal da Grafar, que é uma associação de cartunistas daqui, que começou lá na casa do Luciano Veríssimo e que o Santiago, o Edgar Vasques, que são grandes cartunistas aqui do Sul, se reuniam toda terça-feira.

Rafael

E aí eu fiquei sabendo dessa reunião, cheguei lá, um gurizinho, meus desenhos, mostrei para eles e eles me abraçaram. E foi muito bom, porque eu, no interior, não tinha muito professor, não tinha uma referência, né? E aí, quando eu cheguei em Porto Alegre, de repente eu estou no meio desses grandes mestres. Então, ali foi uma grande escola para mim.

Rafael

Até eu falo isso no filme, né? Que eu matava aula da faculdade para ir nessa reunião, que era toda terça à noite. E foi lá que eu me formei. Foi lá que eu virei realmente um cartunista e gostava também de fazer quadrinhos autobiográficos. Antes mesmo do diagnóstico da esclerose múltipla, em 2010, comecei a ter dificuldade de caminhar, dificuldade para desenhar também, e aí consultei e descobri que estava com esclerose múltipla.

Rafael

Na hora que eu fui diagnosticado, eu já pensei em fazer uma história em quadrinho. Poxa, é uma história que tem que ser contada, que eu preciso contar até como uma jornada de autoconhecimento. Então, eu comecei a fazer os quadrinhos relatando o que estava acontecendo comigo, só que guardei para mim, fui guardando. Até que, em 2015, resolvi: “não, vou botar isso aqui no Facebook e vamos ver o que acontece”.

Rafael

E assim, do dia para a noite, milhares de seguidores e veio gente de tudo que é lugar. Entrevista na Veja, na Zero Hora, para O Globo, o Terra, Folha de São Paulo. Assim, foi da noite para o dia. E aí eu vi que tinha muita potência essa história e, nisso, uma amiga minha mandou uma mensagem: “Rafa, vamos fazer um filme sobre isso”, que ela trabalha com documentário, que é a Thaís Fernandes, que é a co-diretora do filme.

Rafael

Então, em 2015, a gente começou a conversar, ver como é que a gente poderia viabilizar esse filme e aí, buscando editais, fomos começando a fazer um esboço de roteiro e, enquanto isso, eu continuei fazendo meus quadrinhos. O Memórias de um Esclerosado começou como um quadrinho e ganhou força com o filme agora. Então, desde 2015, a gente estreou agora em 2025.

Rafael

A gente levou dez anos para fazer esse filme e foi bem difícil, porque é uma… é uma história que conta as minhas fraquezas, né? É uma doença, mas a gente tentou colocar da maneira que eu sempre faço meus trabalhos, que é com humor. Aí a Thaís puxou mais o documentário, porque é a área dela, e eu puxei um pouco mais para a fantasia, para o onírico, para a palhaçada e acabou casando essas duas cabeças para fazer esse filme.

[Trilha de transição]

Márcio

No caso das narrativas autobiográficas, pensar quem fala é quase inseparável da gente pensar como essa fala se organiza. Voltando lá para Philippe Lejeune, a autobiografia, ela não se define somente pelo conteúdo, por aquilo que se diz, mas por uma espécie de pacto de leitura, ou seja, o pacto autobiográfico, algo como um acordo entre quem narra e quem recebe essa narrativa, quem frui essa narrativa.

Márcio

E Lejeune vai nos lembrar que a autobiografia é tanto esse modo de escrita quanto também um modo de leitura, né? Então, a autobiografia, ela só se realiza plenamente quando o espectador ou o leitor, de alguma forma, ele aceita entrar nesse contrato, acreditando na ligação entre o nome próprio e a voz que narra e a experiência que está sendo descrita.

Márcio

Mas essa crença, ela nunca é plena, mas também nem totalmente ingênua. Ela vai se dando em graus, em zonas de aproximação e distanciamento, onde fato e ficção, elas vão coexistir. E não se trata de garantir uma espécie de verdade utópica, mas de assumir um compromisso com uma verdade possível, que, claro, vai se mostrar atravessada por recortes e esquecimentos também.

Márcio

Quando a gente desloca esse pacto para o campo das imagens, sejam elas gráficas ou cinematográficas, tudo se torna ainda mais complexo. O eu, ele não aparece apenas na primeira pessoa do discurso, mas também se distribui em gestos, enquadramentos, ritmos, recorrências. E, nesse sentido, a autobiografia, ela vai revelar seus modos de organizar a experiência no presente da criação.

Márcio

E é justamente nesse território híbrido em que os quadrinhos autobiográficos, eles vão se afirmar também como um campo singular. Eles permitem que o cotidiano e as pequenas observações sobre o mundo, eles possam se transformar em imagens condensadas, em tirinhas mesmo, em narrativas breves que podem articular humor, crítica e experiência pessoal também. E a criação, ela pode nascer da atenção constante ao que acontece ao nosso redor, uma escuta que vai anteceder o gesto técnico, que vai acontecer antes da mesa do desenho, antes da página em branco, como um trabalho, de fato, diário e contínuo.

Márcio

E é a partir dessas questões que eu perguntei a Rafael sobre como nasce uma ideia antes dela virar, de fato, um desenho.

Rafael
Normalmente, eu tô com a antena ligada o dia inteiro. Qualquer coisa acontece e alguém fala alguma coisa, uma conversa ou com algum livro que eu tô lendo, alguma coisa me desperta pra “ó, isso aqui dá um cartoon aqui, isso aqui dá uma tirinha”, e aí eu anoto. Daí eu faço algumas anotações e aí depois eu vou pra mesa pra desenhar mesmo. Mas, na hora da criação, é bem longe da mesa de desenho. Na hora da criação, é uma coisa mais mental mesmo.

Rafael
É uma coisa que eu gosto de ficar assim, meio que brincando com as possibilidades na cabeça antes de desenhar, então depende muito. Às vezes, quando eu estava publicando na Zero Hora, que era uma tirinha diária de um personagem que era o Arturo Arteiro e que aparece no filme, inclusive, eu ficava o dia inteiro com o modo tirinha do Arthur na cabeça, então qualquer coisa “olha, isso aqui dá uma tirinha do Arthur”.

Rafael
Aí teve enchente aqui em Porto Alegre e a Zero Hora acabou a sessão dos quadrinhos. E aí eu não penso mais na tirinha. Eu consigo fazer isso, canalizar a criatividade para algo que eu quero fazer. Então, agora é o cartum e as histórias que eu conto no Memórias. Então depende muito do que eu estou vivendo e de qual é a necessidade, o que é que eu preciso desenhar naquela… naquela semana, por exemplo.

[Trilha de transição]

Márcio
Quando a gente pensa sobre esses processos de criação entre o campo dos quadrinhos e do campo do cinema, a autoria vai se manifestar como um campo de forças atravessado por influências entre a equipe e os contextos históricos também. Então, reconhecer um autor é perceber como as escolhas individuais se articulam com linguagens e repertórios coletivos. Quando a gente desloca esse debate para as narrativas autobiográficas, essa rede de influências se torna ainda mais visível, porque, quando a gente conta a própria história, a gente está falando a partir de imagens, formas, referências que já existem na nossa trajetória como sujeitos.

Márcio
É nesse sentido que a autobiografia se aproxima daquilo que Marie José Mondzain chama de operação imaginante. Ou seja, é um gesto que vai nascer do desejo de dar forma à experiência e que, ao mesmo tempo, revela a historicidade desse sujeito que cria essa imagem. Então, a imagem desenhada ou filmada vai carregar vestígios das condições que produziram essa imagem e das referências que ajudaram a tornar essa imagem possível.

Márcio
Então, criar é sempre dialogar com um arquivo, seja ele consciente ou inconsciente. No campo dos quadrinhos autobiográficos, esse diálogo é particularmente explícito. Muitas vezes, autores vão se tornar personagens, vão misturar fantasia e experiência vivida. Eles testam limites entre trauma, memória, a fabulação também, e a influência não aparece como cópia, mas como uma autorização simbólica mesmo. Alguém fez antes, alguém abriu um caminho possível para que eu criasse meus próprios caminhos.

Márcio
Então, obras como Retalhos, de Craig Thompson, Maus, de Art Spiegelman, Fun Home, de Alison Bechdel, Epiléptico, de David B., Persépolis, de Marjane Satrapi e outras tantas exerceram e ainda exercem variadas influências na composição de quadrinhos autobiográficos nesse contexto contemporâneo. Então, desde os quadrinhos mais fantasiosos até as narrativas autobiográficas mais densas, essas obras vão transitar entre o humor gráfico e o relato íntimo, entre o cotidiano e a experiência no calor do limite.

Márcio
Então, por isso, para seguir um pouco a nossa conversa, eu pedi a Rafael que ele comentasse sobre as referências que foram fundamentais para que ele sentisse que também era possível transformar a própria experiência em narrativa.

Rafael
Durante a minha formação, assim, lá na minha adolescência, estava em alta, assim, os meus três amigos eram Laerte, Angeli e Glauco. Então eles se colocam como personagens, claro, de uma maneira muito fantasiosa. Mas aquilo ali me inspirou e eles foram influenciados pelo Crumb. E aí, depois, com o Memórias, que é um assunto mais sério, eu me deparei com outros autores que me influenciaram bastante, que é a Marjane Satrapi, a iraniana do Persépolis, o David B., que é um francês que escreveu Epiléptico, que é aquele que conta a história sobre o irmão dele, que é assim, uma porrada.

Rafael
Um livro que, inclusive, uma amiga minha me deu, eu sei lá, da coleção dela. “Toma isso aqui, que isso aqui é importante pra ti”. E eu li. E, a partir dali, eu comecei. Poxa, tem como fazer um livro sobre essas experiências? É um cara que eu gosto muito atualmente, o Guy Delisle, que é um canadense, que vai para os países e passa um tempo. Ele foi pra China, ele foi para a Coreia do Norte e conta, de maneira autobiográfica, essas experiências de viver um tempo num país, no estrangeiro.

Rafael
Então, atualmente, para o Memórias, é a minha maior inspiração, que é o… que se escreve Guy Delisle. Eu não sei como é que se fala… Guy Delisle, claro. Mas aí tem o Art Spiegelman, tem… tem vários outros autores que acabam influenciando a gente.

Márcio
Quando a gente pensa em obras que se constroem a partir da própria vida, uma das primeiras coisas que aparecem é a ideia de fragmento. Uma memória surge em imagens dispersas, em registros feitos sem a certeza de que um dia elas vão fazer parte de uma obra. Existem processos criativos que começam assim, não como um projeto claro, mas como um acúmulo de pequenas imagens guardadas quase por impulso.

Márcio
Arquivos que se formam ao longo dos anos sem uma finalidade imediata. Só mais tarde, quando se olha para trás, esse material começa a pedir uma forma, mesmo que seja uma forma aberta. Nesse tipo de trajetória, o filme imaginado no começo vai sendo atravessado pelo tempo, pelas mudanças da vida, pelas surpresas que o próprio processo impõe também. Então, criar passa a ser também aceitar esse desvio, o desgaste, a dúvida, muitas vezes a vontade de parar, mas, ainda assim, prosseguir.

Márcio
O controle vai diminuindo, a exposição aumenta e a obra passa a se construir nesse espaço que é bem delicado, entre criação e acaso, entre vontade e imprevisto. E é nesse ponto que o gesto autobiográfico vai se revelar menos como um projeto fechado e mais como esse mergulho mesmo, um movimento em que o artista vai precisar lidar com o que foi registrado sem saber o motivo, mas sem saber a intenção, com imagens que vão resistir a uma ordem clara, mas que muitas vezes vão insistir em permanecer.

Márcio
Então, pensando nisso, eu também quis ouvir Rafael falar um pouco sobre o desafio de deixar de estar apenas atrás da câmera ou, no caso dele, do lápis e do papel, e voltar as lentes para ele mesmo.

Rafael
Pois é, quando eu era mais jovem, eu queria ficar atrás das câmeras, queria ser o contador da história, inventar os personagens. E aí o destino quis que eu mesmo fosse um personagem do meu filme. Então foi. E foi bem desafiador, porque a gente começou a filmar e, como levou muito tempo, foi cansativo. Chegou momentos em que eu “Nossa, eu não quero mais, por que é que eu fui inventar de fazer esse filme?”

Rafael
Bem, a gente… eu já filmava antes. Lá nos anos 90, eu fazia faculdade, eu ganhei uma câmera e aí registrei muita coisa. Então tem boa parte do filme que são registros de VHS, mas eu pode começar a gravar. A Mah, que é a diretora, era minha companheira na época e começou a filmar em casa as coisas que aconteciam e isso virou um grande arquivo. É um grande registro pra gente poder colocar isso no filme.

Márcio
Quando eu observo o filme Memórias de um Esclerosado, eu percebo como existe algo bastante único ali sendo compartilhado. As referências de um jovem que sempre quis fazer cinema e ele brinca com os filmes que faziam sucesso milionário nas bilheterias. Quando a gente vê todo esse universo dar corpo a fábulas, sonhos e realidades alternativas, a gente percebe como cada artista acaba criando seus próprios dispositivos para se representar. As fronteiras entre relato íntimo, documento e fabulação vão se embaralhando conforme a linguagem escolhida, o contexto de produção e as relações que se estabelecem ao longo desse processo.

Márcio
O artista afirma algo a partir da sua própria experiência e convida quem assiste a se posicionar também dentro dessa afirmação. Então, a autorrepresentação passa a ser menos uma questão de forma e mais uma questão de relação. A relação com o outro, com a equipe, com o material produzido, com os limites também da autoria. Então, existem práticas que são, sim, mais solitárias, em que o autor vai ter um domínio quase total sobre aquilo que ele está contando, sobre o ritmo, os cortes, as escolhas narrativas também.

Márcio
Mas, dentro de processos coletivos, esse domínio vai se diluir e vai exigir negociação, escuta, abertura para o olhar de outras pessoas. E aquilo que começa como um gesto íntimo, controlado, individual, passa a se transformar em algo compartilhado, atravessado por decisões coletivas e por pontos de vista que muitas vezes vão escapar ao desejo inicial do autor. E é nesse lugar de passagem, entre o controle e a entrega, entre o trabalho solitário e a criação coletiva, que muitas vezes a obra vai ganhar densidade e a autorrepresentação vai deixar de ser apenas um espelho e passa a ser um espaço de encontro mesmo, em que o olhar do outro não vai apagar a subjetividade,

Márcio
mas vai complexificar também essa subjetividade. E, pensando nisso, eu pedi a Rafael que ele comentasse como foi também lidar com essa perda de controle autoral, mas, ao mesmo tempo, quais os ganhos que esse processo coletivo pode trazer para uma obra.

Rafael
O quadrinho é o pontapé inicial do filme e seria o fio condutor. Assim, a partir dos meus quadrinhos, que é uma visão minha, eu comigo mesmo, no meu tempo. E aí, a partir do momento que a gente tinha a câmera, que já não sou mais eu dominando o que eu quero contar, então aí já virou um produto coletivo, feito pelo grupo que está fazendo o filme, que no caso era a Thaís, a Mah e outras pessoas que participaram.

Rafael
Por um lado, assim, eu fiquei meio incomodado, porque no quadrinho eu tenho domínio total. É um trabalho mais solitário, mas eu sei exatamente o que é que eu quero contar, eu sei o que eu quero cortar. E aí, no cinema, já é um trabalho mais complexo e eu não tinha esse domínio.

Rafael
Isso me deixava um pouco incomodado, mas, no final do filme, eu acho que não poderia ser diferente. Eu não poderia fazer um filme sobre mim mesmo sem o olhar de outras pessoas. Então, no fim, foi mais rico assim, do jeito que foi.

[Trilha de transição]

Márcio
Quando a gente pensa na forma das narrativas autobiográficas, uma das questões que logo aparecem é o que acontece depois que essa história deixa de ser apenas do autor e passa a circular no mundo, transformar a experiência em narrativa e também aceitar que essa história vai encontrar outras pessoas, outros corpos, outras memórias. Há algo de particularmente intenso nesse gesto, porque aquilo que nasce de um atravessamento pessoal,

Márcio
quando vai ganhar essa forma artística, passa a operar em outra escala. O íntimo vai deixar de ser algo apenas íntimo e vai se transformar em um espaço de reconhecimento coletivo. A experiência singular vai ecoar nas vivências que também não são idênticas, mas que se tocam. Aquilo que o sujeito viveu, que o autor viveu e, nesse sentido, a obra autobiográfica,

Márcio
ela vai se prolongar nessa recepção, nos debates, nas reações do público, dos relatos que vão surgir a partir dela. Cada sessão, cada conversa vai reabrir muitas vezes essa narrativa, vai deslocar sentidos, produzir novos vínculos entre esse autor e seu público. Então, pessoas que se reconhecem e que vão encontrar ali uma forma de elaborar suas próprias experiências, mesmo quando os contextos são completamente diferentes.

Márcio
E é a partir desse lugar que eu perguntei, Rafael, sobre como tem sido perceber a repercussão do filme e de que forma essa resposta do público vem transformando também a relação dele com a própria história que ele resolveu contar.

Rafael
A recepção tem sido incrível. A gente teve uma grande repercussão nos festivais, principalmente no Cine PE, em Pernambuco, Recife, o ano passado. A gente ganhou cinco prêmios: melhor filme da crítica, melhor filme do público, montagem, trilha sonora, etc. Ganha até ator coadjuvante do meu próprio filme. E, fora isso, o que eu acho mais legal…

Rafael
O que eu estou achando mais legal é o contato direto com o público mesmo, principalmente nas sessões que têm debate, né? A galera fica… tem muita gente que traz os seus relatos pessoais ou de uma pessoa que tem esclerose, ou que tem algum parente, ou algum amigo, ou situações de saúde que não são exatamente esclerose, mas que são tão parecidas e acabam se identificando com o filme.

Rafael
Então tem sido muito legal. Agora a gente foi pra Brasília nesse último final de semana, tudo que é lugar muito especial. Então é bom saber que o filme tem esse retorno, que as pessoas se identificam também.

[Trilha de transição]

Márcio
Ao longo dessa conversa, ficou bem evidente que, quando a gente fala de autobiografia, a gente está abordando um gesto de criação que nunca é totalmente controlado, mas que vai se reinventando a cada etapa do processo. E, por isso mesmo, ele é bastante intrigante. A gente retomou algumas questões de autoria para perceber que o eu que aparece na obra não é fixo, ele também nem é absoluto.

Márcio
E ele vai se deslocar entre linguagens, se transformando quando passa do desenho para o cinema, quando deixa esse espaço solitário da criação individual e vai entrar no território coletivo do filme. E é nesse movimento que a autoria vai se complexificar. A autobiografia aparece como experiência, como tentativa, como o trabalho contínuo de dar sentido àquilo que foi vivido.

Márcio
Então, no momento em que o artista se torna personagem, ele, de alguma maneira, está se confrontando com os próprios desejos e com a necessidade de aceitar o acaso como um elemento que pode enriquecer uma obra também. Então, no instante em que a narrativa deixa de pertencer apenas a quem criou e passa a ser atravessada por outras histórias, outras dores, outras identificações, a gente consegue reconhecer um modo de existir, de criar e compartilhar experiências que, mesmo quando são singulares, vão encontrar ressonâncias no coletivo.

[Trilha de transição]

Márcio
Bom, pessoal, esse foi mais um episódio do F(r)icções, mas ele não termina aqui. Para quem quiser desdobrar os temas debatidos aqui nos podcasts e conhecer outros conteúdos do projeto, é só acessar o nosso site Friccoes.com, nosso Facebook facebook.com/friccoes, nosso Instagram @Fric.coes ou mandar e-mail para a gente no projetofriccoes@gmail.com. Tudo isso sem cedilha e sem til.

Márcio
No roteiro e apresentação, eu, Márcio Andrade; na edição, Priscila Nascimento; na produção, Janaína Guedes; na coordenação geral da revista, Márcio Andrade. Esse projeto é uma realização da Combo Multimídia e conta com incentivo da Lei Paulo Gustavo, através do Edital Geraldo Pinho, da Prefeitura do Recife. Até mais!