Podcast – Transcrição | Virgindade, Fim de Tarde e as infâncias LGBTQIAPN+
Transcrição de Áudio produzida com apoio da plataforma de inteligência artificial Transkriptor
Bloco 01 – Apresentação
LOCUÇÃO – Márcio
Alô, pessoal! Meu nome é Márcio Andrade e esse é o Fricções!
Este é um podcast que integra o livro multimídia ‘Imagens de uma busca de si’, que aborda as diversas formas de escritas de si, no campo da literatura, do cinema e outras linguagens.
Além do podcast, o livro conta com um conjunto de artigos que abordam as escritas de si sob diferentes perspectivas: o ensaio, o documentário autobiográfico, a autoficção, a autoetnografia. A partir destes diversos ângulos, pretende-se compor um panorama das reflexões mais recentes em torno da escrita em primeira pessoa e suas variadas modalidades.
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Esse podcast é uma realização da Combo Multimídia, com incentivo do Governo do Estado de Pernambuco, por meio do edital do Funcultura.
E o tema do segundo podcast é Virgindade, Fim de Tarde e as infâncias LGBTQIAPN+
Bloco 02
02 Gorky’s Zygotic Mynci – Stood On Gold
LOCUÇÃO – Márcio
No cinema contemporâneo, o surgimento das escritas de si marca uma inflexão nos modos de representação e nas estruturas de narratividade. A partir do cinema experimental, principalmente a partir da década de 1960, autores como Jonas Mekas, Su Friedrich, Stan Brakhage e Barbara Hammer iniciam um movimento que introduz a primeira pessoa como operador central da linguagem cinematográfica.
Trata-se de um deslocamento radical: a imagem deixa de funcionar exclusivamente como janela para o mundo externo e passa a operar como espelho, arquivo e performance de subjetividade. Essas obras não são apenas retratos de si, mas investigações formais sobre o que significa ser autor, estar em cena e narrar a própria experiência.
Neste episódio, a gente acompanha um recorte da trajetória de Chico Lacerda centrado nessa investigação. Cineasta, quadrinista, pesquisador e professor, nessa conversa ele aborda como suas produções se inscrevem nesse campo de inquietações.
Chico Lacerda integra o coletivo audiovisual Surto & Deslumbramento, como professor, atua no Departamento de Comunicação Social da UFPE, cuidando do tronco de realização audiovisual do curso de Rádio, TV e Internet. De início, pedi que ele se apresentasse, falando de sua trajetória como artista e como foram seus primeiros contatos com a escrita de si.
Resposta 01 – Chico Lacerda
Acho que essa vontade de me expressar vem desde a adolescência. Era um desejo de dar forma às minhas angústias, aos sentimentos mais íntimos, e isso começou pela escrita — contos, poesias, coisas que nunca publiquei, mas que funcionavam como um espaço de elaboração pessoal. Ficou ali, na adolescência. Depois fui para a faculdade, fiz graduação em Ciência da Computação, mas o interesse pelo cinema já existia desde aquela época também.
Enquanto trabalhava na área de ciência da informação, comecei a estudar teoria e linguagem cinematográfica por conta própria. Foi um percurso bastante autodidata, um caminho paralelo que acabou me levando à produção de filmes. Por volta de 2005, consegui ter acesso a uma câmera digital e comecei a produzir de forma muito despretensiosa. Fazia filmes curtos, experimentais, sozinho, com a câmera — mas ainda não havia ali uma escrita em primeira pessoa de forma explícita.
A possibilidade de fazer obras audiovisuais em primeira pessoa surgiu quando tive contato com outras que já faziam isso. Fui participar de um festival em Turim, na Itália, com um filme de ficção, e lá assisti a uma retrospectiva da cineasta estadunidense Sue Friedrich. Vi três documentários curtos dela, todos em primeira pessoa. Um sobre a mãe, outro sobre o pai, e o terceiro — Rules of the Road — sobre a relação dela com uma mulher com quem ela foi casada, mediada pelo carro que elas compartilhavam. Foi uma experiência transformadora.
Esses filmes me mostraram que era possível falar de si de maneira intensa, poética, política — e, ao mesmo tempo, produzir pensamento sobre as relações. Essa exposição pessoal como gesto cinematográfico me abriu caminhos. Alguns anos depois, já com o coletivo audiovisual Surto de Umbramento, que fundei com três amigos, comecei uma produção mais consistente, não só minha, mas também dos outros membros. Foi aí que surgiu a ideia de utilizar esse dispositivo da primeira pessoa de maneira mais consciente e direta. A primeira experiência nesse sentido foi Virgindade, um filme que realizei em 2015.
LOCUÇÃO – Márcio
Su Friedrich, cineasta estadunidense, é uma das pioneiras na exploração da primeira pessoa como forma de construir ensaios audiovisuais. Seus filmes são atravessados por relações familiares, afetivas, sexuais, e operam a partir de um olhar que não se pretende neutro ou objetivo. Ao contrário, é um olhar implicado, que torna visível o próprio processo de construção da imagem.
Um dos primeiros filmes a que assisti desta cineasta foi Sink or Swim, um filme de 1990, com duração de 48 minutos, que descreve os eventos da infância que moldaram as ideias de uma menina sobre paternidade, relações familiares, trabalho e lazer.
Neste filme, ela cria uma espécie de autobiografia em terceira pessoa, em que ela conta eventos de sua própria história, mas referindo-se a si mesma como ‘a garota’ e os outros personagens de forma anônima – como o pai, a mãe etc..
As situações abordadas envolvem as complexas dinâmicas familiares, as lembranças miúdas do cotidiano, assim como as descobertas e conflitos da infância e adolescência. De maneira geral, as imagens de arquivo familiar criam uma espécie de conflito entre o caráter íntimo das imagens e o olhar, em certa medida, distanciado a partir do uso da narração em terceira pessoa.
É no contato com obras como esta que reconhecemos a variedade de possibilidades de trazer nossa própria voz para o centro da narrativa, não somente como confissão, mas também como proposição estética e política.
Agora, confiram um trecho do filme ‘Sink or Swim’, de Su Friedrich.
Bloco 03
LOCUÇÃO – Márcio
A partir de seus contatos com o cinema, Chico integra o coletivo Surto e Deslumbramento, junto com seus amigos e parceiros: André Antônio, Rodrigo Almeida e Fábio Ramalho.
Surgiu em meados de 2012, a partir da vontade de, na produção de filmes, fotos e intervenções em geral, abraçar elementos como o artificialismo, o lúdico, a paródia, o deboche, a viadagem, a pinta, o pop e a cultura de massa. Essas características, por consequência, os afastava de boa parte dos elementos que davam a tônica da produção cinematográfica nacional independente da época.
Dentre os filmes produzidos pelo coletivo, estão Casa Forte, Estudo em Vermelho, Mama, Vênus de Nyke, A seita, dentre outros. A ausência de recursos, atores e equipes técnicas levou os próprios realizadores a ocuparem todas as funções, inclusive a de atuação.
Nesse sentido, mostra-se impossível ignorar a presença em cena dos próprios diretores em algumas destas produções. Digo isso porque, embora ocasional, o corpo do autor, no contexto proposto pelas produções do coletivo, também se torna linguagem, e a autorrepresentação ganha densidade política.
Nesse contexto, essas escolhas parecem ampliar o espectro das discussões que eles promovem em torno da opacidade da obra fílmica, marcada pela reflexividade, pelo híbrido entre documentário e ficção, pela fabulação de dissidências. Pedi que Chico comentasse um pouco sobre isso.
Resposta 02 – Chico Lacerda
Na verdade, tudo isso surge de uma contingência. Quando montamos o coletivo, começamos a fazer sem esperar por condições ideais — até porque, sinceramente, não sei se essas condições ideais realmente existem. A gente não tinha dinheiro, mas tinha tempo. Por volta de 2012, 2013, todos nós estávamos no mestrado ou doutorado, com bolsa de pesquisa, e isso nos dava uma certa liberdade. O compromisso era com a pesquisa, e esse tempo disponível foi fundamental.
A gente decidiu concretizar as ideias com o que tínhamos em mãos. Usávamos câmeras emprestadas, não tínhamos equipamento de som, então improvisávamos. Nós mesmos assumíamos funções como câmera, som, edição. E, como não havia possibilidade de contratar elenco, nos colocávamos em cena. Quando precisávamos de mais gente, chamávamos amigos — e o pagamento era com bebida. Nossos primeiros filmes surgiram assim: feitos entre nós, com os recursos e afetos disponíveis.
Depois, à medida que fomos acessando outros formatos de produção — principalmente através de editais —, conseguimos realizar filmes com orçamento, o que permitiu contratar equipes e elencos profissionais. A André, por exemplo, já dirigiu dois longas com atores contratados, profissionais experientes. Mas a possibilidade de nos colocarmos em cena nunca deixou de existir. Foi o que aconteceu, por exemplo, em Vênus de Nike, feito durante a pandemia. Era uma situação muito específica: só quatro pessoas envolvidas — eu, André, Aristeu e Socha. E o filme foi realizado assim, com a André interpretando todos os personagens e dirigindo ao mesmo tempo.
Então, colocar-se em cena nunca foi exatamente uma escolha estética inicial, mas sim uma necessidade. Uma contingência que acabou abrindo possibilidades criativas. E, mesmo hoje, quando temos estrutura para fazer testes e contratar elenco — como aconteceu agora com Cerimônia, dirigido por Fábio Ramalho, que está em finalização —, seguimos abertos à ideia de nos colocar em cena quando necessário. Se for o caso, faremos de novo, sem nenhum pudor.
LOCUÇÃO – Márcio
Adentrando um pouco mais na filmografia de Chico, o seu curta ‘Virgindade’, por sua vez, realizado em 2015, parte de dez relatos de infância e adolescência que constroem um mapeamento afetivo e sexual da cidade do Recife.
Espaços como cinemas, bancas de revista e fachadas de casas funcionam como gatilhos para a rememoração de desejos e interdições. A construção do filme se estrutura pela dissociação entre som e imagem: a voz narra uma memória, enquanto a imagem exibe o mesmo lugar anos depois.
Neste curta, Chico cria uma cartografia íntima a partir da cidade. Fachadas de prédios, lojas, casas, bancas de jornal, antigos cinemas pornográficos… Esses espaços, revisitados pela câmera, são acionados como portais de memória. Junto a arquivos pessoais e performances de atores, eles compõem o cenário sensível onde o diretor fabula suas descobertas sexuais na infância e adolescência.
Resposta 03 – Chico Lacerda
O filme se centra nas minhas memórias de infância e adolescência, especialmente nesse processo de descoberta da sexualidade. Mais especificamente, nas estratégias que eu criava para ter acesso a imagens de corpos masculinos pelos quais eu sentia desejo. Ao revisitar essas situações, percebi que havia ali um certo tom tragicômico — o personagem que tenta, a todo custo, alcançar algo e encontra sempre obstáculos no caminho.
Falar disso em primeira pessoa foi, para mim, uma escolha que parecia adequada. Mas eu sempre acreditei que só isso não bastava. Apenas narrar em primeira pessoa poderia reduzir a experiência a um testemunho. E o que eu buscava era mais do que isso — era encontrar uma forma que permitisse à narrativa ganhar espessura, deslocamento, camadas.
Foi a partir dessa inquietação que surgiu a ideia de articular esses relatos pessoais — são dez ao todo — com uma dimensão visual e temporal mais ampla. Cada relato está vinculado a um lugar específico da cidade onde aquela experiência se deu: cinemas, bancas de revista, casas. E então decidi voltar a esses mesmos lugares, vinte anos depois, com a câmera, para ver o que restava. O que mudou. O que permaneceu.
Assim, a estrutura do filme combina esses dois tempos: o tempo do relato, que reconstrói aquele espaço como era, e o tempo da imagem, que mostra o que ele é agora. E nesse vão entre as duas camadas — entre voz e imagem, entre passado e presente — surge também uma reflexão sobre o desejo, sobre a cidade, sobre a passagem do tempo e sobre os espaços públicos em que esses afetos se encenaram.
Quando consegui articular esses elementos — a voz, os lugares, os afetos, a cidade —, percebi que havia ali um gesto de criação que valia a pena ser levado adiante. Foi aí que comecei a construir o filme: escrevendo os relatos, mapeando os espaços, voltando a eles, e descobrindo, na montagem, como essas camadas poderiam se contaminar mutuamente.
LOCUÇÃO – Márcio
E agora vamos escutar um trecho do filme ‘Virgindade’, de Chico Lacerda.
Bloco 04
LOCUÇÃO – Márcio
O pesquisador Steven Maras, professor da University of Western Australia, no livro Screenwriting: History, Theory and Practice, propõe que o roteiro não deve ser visto como um objeto fixo, mas como uma prática. Uma prática que envolve processos, técnicas, dispositivos – e que, em diferentes momentos, pode se organizar de formas distintas. É a partir dessa concepção que podemos pensar Virgindade como um exercício de escrita não normativa. Um roteiro que se constrói com o som, com os corpos, com o movimento e com o próprio gesto de lembrar.
No filme, o roteiro se apresenta como dispositivo: organiza imagens, aciona discursos e estrutura ações que se confundem com o próprio ato de rememorar. Ao articular suas memórias aos espaços urbanos, Chico cria uma escrita em que a cidade parece se tornar quase cúmplice da subjetividade. E é justamente essa dimensão auto/ficcional, quase fantasmagórica, que permite ao filme libertar o sexo da imagem física – e reinscrevê-lo na imaginação.
Em Virgindade, a imagem documental dos espaços públicos não é prova, nem testemunho. É evocação, testemunho. A voz do narrador costura essas imagens de um cotidiano aparentemente banal com a densidade de quem viveu aquilo. Há um olhar que só a experiência pode imprimir. E é nele que o filme encontra sua força ao se comunicar com outras pessoas.
Resposta 04 – Chico Lacerda
Quando decidi fazer o filme, eu não tinha muita noção de como ele ia reverberar. Eram experiências muito particulares, íntimas, que eu escolhi por conta do potencial tragicômico que traziam. Poderia ter selecionado outras memórias, mas aquelas dez me pareciam carregar algo que me interessava formal e afetivamente: essa tensão entre o desejo e a interdição. O desejo de uma criança ou adolescente tentando acessar imagens de corpos masculinos, lidando com os obstáculos impostos não só pela idade, mas também pelo gênero.
Havia, nos relatos, esse curto-circuito que me instigava: eram experiências que, na mente de quem narra, tinham um conteúdo sexual, até certo ponto perverso — e isso vindo de uma criança, de um adolescente. E isso colocava em cena também uma discussão importante sobre a sexualidade infantil. Uma dimensão do desejo que, socialmente, se espera que não exista — ou que, se existe, deve ser silenciada. E me interessava justamente tensionar essa expectativa.
Quando o filme foi lançado, ainda de forma muito pequena — a primeira exibição foi na Federal —, eu não sabia se aquilo comunicaria com alguém. Mas logo depois, numa sessão no Festival de Cinema Underground, que acontecia no Texas (aqui no centro do Recife), eu pude ver a reação de um público maior e, especialmente, conversar com as pessoas. E aí algo me surpreendeu: muitos homens héteros se aproximaram para dizer que, mudando o gênero ou o objeto de desejo, tinham vivido experiências muito parecidas.
Talvez porque o filme trate de um período específico da vida — essa infância ou adolescência marcada por interdições —, muitos espectadores conseguiam se identificar com aquilo. O que para mim era profundamente pessoal, acabou se tornando, para outros, um espelho. E acho que foi isso que deu ao filme um potencial de diálogo que eu não esperava.
Curiosamente, embora tenha começado de forma discreta, esse acabou sendo o meu filme com maior circulação: foi o que teve mais prêmios, mais festivais, mais conversas. E sempre com esse retorno recorrente: de como as pessoas se reconheciam, mesmo sem terem vivido exatamente as mesmas situações. O filme acabou encontrando uma comunicação que não foi planejada, mas que talvez tenha acontecido justamente porque partiu da fricção entre o íntimo e o coletivo, entre o desejo e a proibição, entre o riso e o incômodo.
LOCUÇÃO – Márcio
Ao abordar temas ligados à descoberta da sexualidade, à sexualidade infantil e aos desejos homoafetivos, Virgindade se arrisca em zonas que muitas vezes são silenciadas ou estigmatizadas. No entanto, é justamente esse risco que produz empatia. O filme, inicialmente projetado como experimento pessoal, encontra enorme ressonância entre espectadores diversos.
Nesse sentido, a primeira pessoa também produz um espaço coletivo de reconhecimento. A escrita de si não significa necessariamente o fechamento no próprio ego, mas a criação de um espaço de partilha.
Além disso, Chico explora a escrita em primeira pessoa em outras linguagens. Durante a pandemia, ele retoma o desenho como prática criativa e desenvolve sua primeira série de quadrinhos em formato longo. Fim de Tarde, publicado pela editora O Grito! HQ, é uma trilogia autobiográfica que aborda três fases da vida do autor: infância, adolescência e início da vida adulta.
Este recorte temporal me lembrou uma graphic novel chamada ‘O enterro das minhas ex’, da quadrinista francesa Anne-Charlotte Gautier, ou simplesmente Gautier, conhecida também pela obra “Justin”. Ambas foram publicadas pela editora Nemo.
A obra se estrutura a partir de um mote narrativo claro: a tentativa de contar à mãe que é gay. Essa narrativa, dividida em três atos, permite que o leitor acompanhe a construção subjetiva de um personagem que é, ao mesmo tempo, autor e figura ficcionalizada.
A HQ, como linguagem sequencial e visual, permite uma reorganização do passado com um controle rítmico e composicional bastante distinto do cinema. Pedi que Chico contasse um pouco mais sobre o contexto dessa obra e as diferenças na criação desta obra.
Resposta 04 – Chico Lacerda
Comecei a trabalhar com a linguagem dos quadrinhos quase por acaso, num movimento atravessado pela pandemia. Um pouco antes desse período, eu havia retomado uma prática antiga e despretensiosa: o desenho. Sempre gostei de ilustrar, embora nunca tivesse estudado formalmente. Mas, pouco antes da quarentena, fiz dois cursos — um de aquarela e outro de lápis de cor — com duas artistas aqui de Recife. Foi um reencontro com o gesto de desenhar, sem muitas pretensões, apenas como forma de expressão.
Quando a pandemia chegou e filmar se tornou mais difícil, tive, por um tempo, uma rotina mais livre — antes mesmo das aulas online começarem. Já era professor, mas naquele intervalo inicial me vi com mais tempo, e comecei a desenhar com mais frequência. Como já trazia uma bagagem de construção narrativa no cinema, naturalmente essa energia criativa foi se deslocando para os quadrinhos. Comecei com tiras e, aos poucos, fui ampliando o formato, me aventurando em narrativas mais longas.
Uma referência fundamental nesse processo foi a quadrinista estadunidense Alison Bechdel. O livro Fun Home, que narra em primeira pessoa a morte do pai e a descoberta, posterior, de sua homossexualidade — num momento em que a própria autora também vivia o processo de se assumir — me mostrou como os quadrinhos podiam sustentar uma narrativa íntima, profunda e estruturada a partir da memória e do afeto. Aquilo me tocou muito e me ofereceu um caminho.
Foi nesse contexto que decidi criar uma narrativa autobiográfica mais longa em quadrinhos. De certa forma, ela dialoga com o meu filme Virgindade, que trabalha com relatos da infância e adolescência marcados pela descoberta do desejo. Mas, ao contrário do filme, que tem uma estrutura mais fragmentada e ensaística, a HQ Filho e Tarde se organiza em um formato narrativo mais clássico, com começo, meio e fim — um relevo dramático mais definido.
A obra é dividida em três volumes curtos: o primeiro retrata a infância e o primeiro reconhecimento do desejo; o segundo mergulha nas tensões com o mundo externo, nas interdições sociais; e o terceiro aborda a autoaceitação e a tentativa de comunicar à mãe essa identidade. Cada volume parte de uma mesma situação: o momento em que esse filho, já no início da idade adulta, tenta contar à mãe que é gay. A partir daí, a narrativa se desdobra em memórias, intercalando passado e presente.
Algumas lembranças reaparecem tanto em Virgindade quanto em Filho e Tarde, mas sob perspectivas distintas. Enquanto o filme aciona um jogo entre voz e imagem, passado e presente urbano, os quadrinhos investem na construção dramática mais direta. Ainda assim, ambos compartilham uma preocupação com o desejo, a linguagem e o modo como se constrói a própria identidade. Em Filho e Tarde, há ainda uma dimensão de luto simbólico: a mãe não aceita o que ouve, e, para que esse personagem possa viver plenamente seus desejos, é preciso que ocorra uma espécie de morte simbólica da figura materna.
O que me interessava, desde o início, era justamente isso: pensar como se narram experiências íntimas que envolvem desejo, silêncio, rejeição e descoberta. E perceber que, mesmo usando estruturas narrativas diferentes no cinema e nos quadrinhos, a pergunta de fundo é a mesma: como contar aquilo que nos atravessa?
LOCUÇÃO – Márcio
Mesmo que sejam incomparáveis, colocar Fim de Tarde e Virgindade lado a lado nos permite perceber como obras que partem de um mesmo corpus de memórias podem reorganizá-las de formas tão distintas, segundo seus próprios regimes de visibilidade.
No cinema, o som, a imagem e o tempo se articulam para produzir ambiguidades e zonas de indeterminação. Nos quadrinhos, a sequencialidade, o enquadramento e o texto escrito geram outra temporalidade.
Em cada uma delas, Chico elabora sentidos bastante distintos para as mesmas experiências, demonstrando que a escrita de si também pode ser uma escrita sobre o que pode uma linguagem. Ou seja, o que se pode criar a partir das lacunas, das faltas, dos vestígios.
Em três volumes, Fim de tarde acompanha os anos de infância, adolescência e início da vida adulta, atravessando os conflitos em torno da descoberta da própria identidade homossexual. São episódios que, por mais íntimos que sejam, parecem carregar algo de universal nas situações e tensões retratadas.
Assim como Virgindade, a HQ explora a temporalidade analógica dessas experiências, ao mesmo tempo que retrata ambientes bastante recorrentes nos anos 90 e 2000, como locadoras, bancas de revista, chats de bate-papo etc..
Além disso, alguns cenários me eram familiares, como o Centro de Informática da UFPE e o Teatro do Parque, por exemplo, o que, imediatamente, me transportou para algumas experiências sexuais e afetivas que vivi também nesse período.
O projeto vindouro de um longa de animação baseado em Fim de Tarde, desenvolvido em parceria com a produtora Nara Aragão, confirma a continuidade e a coerência da obra de Chico Lacerda. Acredito que a escolha pela animação pode mobilizar uma linguagem que permite esse descolamento do real a partir da plasticidade e da poética.
Agora, vamos escutar agora a música ‘Sonhos Infantis’, na voz da cantora Diana.
Bloco 05 Encerramento
LOCUÇÃO – Márcio
Bom, pessoal. Esse foi mais um episódio do F(r)icções, mas ele não termina aqui.
Para quem quiser desdobrar os temas debatidos nos pods e conhecer os outros conteúdos do projeto, é só acessar nosso site – friccoes.com –, nosso Facebook – facebook.com/friccoes –, nosso Instagram – @fric.coes – ou manda um e-mail pra gente no projetofriccoes@gmail.com
No roteiro e apresentação, Márcio Andrade. Na edição, Priscila Nascimento. Na produção, Janaína Guedes. Na Coordenação Geral da Revista, Márcio Andrade. Realização, Combo Multimídia. Incentivo, Funcultura do Governo do Estado de Pernambuco. Até mais!
