Flávio CRO
Artleta, espartista, pesquisador e professor. Dr. em Artes Visuais pelo PPGAV-UFRJ
A cidade não é um palco estático, mas um pergaminho de asfalto e memória, sobre o qual decidi inscrever, com o giro de uma roda, uma narrativa pessoal e cartográfica. Entre 14 de maio e 14 de junho de 2018, a Residência em Arte Digital da Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, ofereceu um terreno fértil para que esse gesto ganhasse corpo e forma — a iniciativa surgiu de um edital construído em parceria com o curador Pablo Gobira, professor da Escola Guignard, da UEMG e coordenador do LAB|FRONT, grupo de pesquisa que acompanhou todo o processo junto ao educativo da instituição. O projeto que ali germinou, intitulado De Portinari em Portinari (2018-2019), foi muito além de um simples registro de percursos, materializando um método de criação onde a bicicleta, o GPS e o próprio corpo se fundiram em um instrumento único de desenho através do vídeo.
Durante aqueles dias, um espaço concebido pela CASACOR transformou-se em um laboratório de coworking, onde as trocas com os demais residentes — Alexandre Milagres, Augusto Lara, Fabrício Lins, Guilherme Xavier, Letícia Vianna, Mari Moraga e Thiago Amoreira — irrigaram sensivelmente as possibilidades da proposta. A ideia central era simples na ação, mas complexa em suas camadas: pedalar em direção a locais que abrigam obras de Cândido Portinari ou que carregam seu nome, espalhados por Belo Horizonte, como o icônico painel na Igreja de São Francisco de Assis,[1] na Pampulha. Entretanto, a simplicidade do ato de pedalar dava lugar a um intricado sistema de captura de dados. No início e no fim de cada jornada, realizava uma fotografia digital e uma “fotografia sonora” de aproximadamente dez segundos, capturadas na Casa Fiat ou em suas imediações, assim como no destino, capturando não apenas a imagem, mas a paisagem sonora daquele momento preciso.
Todo o deslocamento era, então, rastreado e cartografado pelo aplicativo Strava.[2] Seus mapas, gerados automaticamente, tornaram-se a base sobre a qual a experiência foi recomposta. Utilizando o aplicativo Relive,[3] convertia os desenhos cartográficos em animações digitais que pedalavam o ritmo dos percursos. O trabalho final foi uma videoperformance, ilustração. 1, construída em colaboração com a designer Letícia Vianna, que amalgamava diversas camadas de informação – visual, sonora, espacial e temporal. Era a condensação de 205,83 km pedalados em 13 horas, distribuídas por 10 dias, em um vídeo de dois minutos e seis segundos (2,06 min.). Que, como observou o artista Ariel Ferreira, “miniaturizou o tempo dessas memórias”, comprimindo a extensão física e a duração em uma experiência sensorial densa e poética.

A apresentação ao público ocorreu na exposição Cidades e Outras Passagens (2018), na Piccola Galeria da Casa FIAT de Cultura, e o trabalho seguiu ecoando em outras mostras. Uma versão sonora, com trilha composta por Daniel Nunes, do projeto Lise, estreou no Seminário de Arte Digital (SAD) em 2019, enquanto um recorte do vídeo percorreu cidades da América do Sul pelo Museo de Arte Digital a Cielo Abierto da BIENALSUR. Esses desdobramentos confirmavam a potência da cartografia gerada, que se revelava não apenas visual, mas profundamente sonora e imaginária.
Muitas vezes, os sons que tropeçamos nas ruas, em nossa desatenção cotidiana, parecem esmagar tudo, obrigando-nos a ignorá-los ou classificá-los como ruídos indignos de escuta. No entanto, ao ganharem um arranjo musical na composição de Nunes, esses mesmos sons se mesclavam à imagética do vídeo, resgatando sua potência narrativa e atraindo novamente nossa atenção para a sinfonia caótica da cidade. Essa sobreposição de camadas de representação na videoperformance De Portinari em Portinari dialoga diretamente com a noção de uma “realidade dobrada” proposta pelo filósofo francês Gilles Tiberghien (2013). Para o autor, certas práticas artísticas consideram o mundo como uma realidade acessível através dos mapas que utilizamos e que desdobramos para ler o espaço. O vídeo, no entanto, não se contenta em desdobrar; ele sobrepõe. Nele, as linhas desenhadas pelo pedal justapõem camadas virtuais à cidade, lidas através da tela do celular, criando uma palimpsesto onde o trajeto físico, o dado digital e a interpretação estética se fundem.
A leitura de Tiberghien me alerta, porém, para o desinteresse dos artistas pela precisão geométrica do mapa. Sua atenção está voltada à intenção de confundir resultados, valorizando a imprecisão poética da imagem. É nessa imprecisão, nessa fricção entre o traçado exato do GPS e a experiência subjetiva do percurso, que reside a potência de ressignificar a realidade. A obra reconstrói a cidade nas brechas abertas por uma representação intencionalmente imperfeita, fixada nessas outras “cartas” que expressam a visão de mundo de cada artista-cartógrafo. A vontade de desdobrar múltiplos espaços e tempos destaca a intensidade poética de existências simultâneas, provocando o imaginário de quem as experimenta.
Essa disposição para nos tornar sensíveis ao que antes ignorávamos desdobra linhas e sons cruzados no tempo da cidade, chamando a atenção para outra camada fundamental: a do corpo. Este que sempre esteve presente no fazer artístico, mas que, durante grande parte da história da arte, permaneceu à margem das considerações, escondido atrás do resultado final, apagado pela obra que se vê ou meramente ficcionalizado como tema. Artistas pioneiros da performance, como o brasileiro Flávio de Carvalho[4] e o estadunidense Jackson Pollock,[5] colocaram o corpo em evidência, ajudando a percebê-lo não apenas como meio de produção, mas como “objeto final” da obra, expandindo radicalmente a percepção da atuação física nas artes visuais.
Foi a partir da abertura promovida por esses criadores que outros, como o alemão Joseph Beuys,[6] passaram a adotar o corpo como matéria-prima indisciplinada de seu trabalho. Beuys era conhecido por estabelecer uma relação de intimidade com a natureza e por suas ações que antecipavam reflexões sobre arte e sustentabilidade. Era comum vê-lo chegar as vernissagens pedalando sua bicicleta, um objeto que transcendia sua função utilitária e se tornava um símbolo em seu universo poético. A importância desta em seu pensamento é visível no cartaz da exposição Is it About a Bicycle? (1985), ilustração 2, onde o veículo surge como tema e objeto central da discussão. Essa paixão e o reconhecimento do potencial da bicicleta como meio de fazer arte têm uma presença marcante na história da arte do século XX. Ela evoluiu da condição de tema ou material, como em Roda de Bicicleta (1913) de Marcel Duchamp,[7] para a de instrumento de criação e extensão do corpo do artista.

Na minha proposta, focalizo a bicicleta precisamente como essa expansão física do desenho, cruzando mapas e vídeos gerados por aplicativos com a performance crua dos percursos pedalados. Ao exibir os resultados no videowall da instituição, busquei que o público conectasse a estrutura arquitetônica da cidade, visitasse e articulasse parte de sua história ao frequentar a exposição. A obra, assim, funcionava também como um convite para que esses trajetos fossem re-pedalados, re-experienciados por outros corpos. No cruzamento e modificação do material coletado — o fotográfico, o audiovisual, o movimento via satélite e sua recriação em animação digital — ecoam procedimentos de pioneiros da videoarte, como Nam June Paik[8] e Eder Santos.[9] A introdução do vídeo nas artes visuais trouxe consigo a possibilidade de mesclar tecnologias e desdobrar a fisicalidade das galerias no tempo da narrativa fílmica.
Um dos desdobramentos mais potentes do projeto surgiu com o convite para integrar a exposição In~Manta (2018), idealizada pelo artista e curador Marconi Marques.[10] Para essa mostra, no Centro Cultural Salgado Filho, o percurso selecionado foi pedalado da Escola Estadual Cândido Portinari (EECP) até a Casa FIAT de Cultura. A proximidade física entre a EECP e o centro cultural me levou a intuir que ação e exposição foram atraídas por uma encruzilhada magnética. A partir dessa intuição, converti o deslocamento em uma cartografia portátil intitulada De Portinari em Portinari CCSF (2018), ilustrações 3 e 4. Nela, pequenos ímãs aderiam a uma placa de metal adesivada com um detalhe da obra Civilização Mineira (1959), de Portinari. Cada um desses fragmentos de memória podia ser deslocado, compartilhado, atraindo as mãos do público que por eles se deixasse magnetizar, replicando o imaginário dos antigos caixeiros-viajantes. Em suas marchas por nossas estradas iam “de porta em porta”, com mercadorias nas malas e a cabeça cheia de sonhos.

A escolha dos títulos De Portinari em Portinari e In~Manta abusa deliberadamente do trocadilho, da paronomásia. Exposição e obra confirmam-se no ímã, que se imanta à placa. E magnetiza também aqueles que escolhem movê-lo, juntando-os a essa corrente de significados. Nas artes visuais, esse jogo ultrapassa as palavras, produzindo trocadilhos visuais e materiais. Alguns artistas mineiros, por exemplo, cruzam imagens e trocam palavras dando continuidade a essa linhagem. Em Se Correr, Se Ficar (2003–2005), ilustração 5, Ariel Ferreira dialoga com o ditado popular através da sola de um tênis, imprimindo no chão dúvida e resposta a cada passo. Já em Partida do Sensível (2013), ilustração 6, Renato Negrão realiza uma partida de tênis irônica ao disputá-la não com raquetes, mas com os próprios tênis calçados nas mãos, num gesto que devolve o lúdico e abole a noção de vencedores e vencidos ao esporte.


Renato Negrão (2020) afirma que “um trocadilho é, como forma, junto com a metáfora, base de toda poesia feita neste mundo.” É uma poesia que se aconchega à vida, que colore o cinza do concreto e que, no caso desses artistas, serve como ferramenta para uma crítica debochada aos sistemas — tanto artísticos quanto esportivos — nos quais se inserem. Eles criam o que se pode entender, como uma “contra-assinatura”, um gesto que, segundo o filósofo Jacques Derrida (2012), corrobora e subverte os significados estabelecidos, jogando com a arte de criar novos sentidos.
É nesse território de fricção e ressignificação que minha prática se insere e onde os termos artleta, esparte e espartistas ganham corpo. O artleta é aquele que opera nesse cruzamento, para quem o corpo em movimento é o meio e a mensagem. A esparte não é simplesmente a ilustração de um gesto esportivo, mas a utilização do seu potencial metafórico, narrativo e crítico como procedimento estético. Os espartistas são aqueles criadores, que, como eu, Beuys, Ferreira e Negrão, transformam ações cotidianas do corpo em exercício poético, potencializando o ordinário no enredo da arte.
Contudo, não é apenas o divertimento ou a crítica institucional que alimentam essas propostas. Ned Ludd (2005) nos lembra, com contundência, que o espaço da rua, tão essencial para esses criadores, há muito nos foi tomado por uma lógica assassina. Ele aponta que os acidentes de trânsito no Brasil configuram uma guerra velada, um problema gravíssimo de saúde pública, agravado pela propaganda massiva em favor dos veículos automotores. Diante dessa realidade, as propostas espartivas trazem, em suas particularidades, aspectos de equilíbrio e resistência. Elas se alimentam de esportes que têm no corpo seu próprio motor — seja no jogo, no caminhar ou na bicicleta — e os transformam em veículos de sustentabilidade e resgate da sensibilidade humana. Tais dimensões são hoje vistas como peças-chave para contestar a violência urbana, sendo cada vez mais estimuladas como fundamentos de estratégias pró-vida e pró-saúde.
Os jogos desses artletas nos permitem, portanto, experimentar a cidade a partir de práticas espartivas que vão além de conectar artes visuais e esporte. Elas permitem criar laços humanos e enxergar além das camuflagens dos problemas que enfrentamos. Propõem maneiras alternativas de confrontar — ou desconstruir — a vampiresca meritocracia do desempenho puro e a lógica destrutiva da mobilidade centrada no automóvel.
Por fim, fazem-nos pensar que, de pedalada em pedalada, todos esses “Portinaris” se cruzam no giro de uma roda de bicicleta. Costuram propostas que colorem a tessitura desses fios nas linhas esticadas das ruas. Ao redesenharem no mapa da cidade jogos que calçam sonhos, revelam pegadas de conexões antes invisíveis. E, que agora saltam na paisagem como algo que pulsa através da cadência do caminhar desses artletas, em seus trocadilhos poéticos e jogos visuais. É, como na trova de Cler de Veloix, pseudônimo da trovadora e pedagoga Célia Maria Barbosa Rodrigues — minha mãe —, que faz sentir que ao nos lançarmos na bicicleta a arte e a vida se encontram em um mesmo, e infinito, percurso que expande a linha do desenho ao tamanho dos sonhos de uma cidade que se projeta na tela.
E, é mágico quando o sol,
se esconde feito criança.
Eu, me lanço ao arrebol,
na bicicleta da esperança.
Cler de Veloix
Referências
DERRIDA, Jacques. Pensar em não ver: escritos sobre as artes do visível. (1979-2004). Org. Ginette Michaud, Javier Bassas, Joana Masó. Trad. Marcelo Jacques de Moraes. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2012.
FERREIRA, Ariel. O Romântico Contemporâneo. 2015. Tese (Doutorado em: Artes Visuais) — Escola de Belas artes, UFMG, Belo Horizonte. 2015.
LUDD, Ned. Apocalipse motorizado: a tirania do automóvel em um planeta poluído. Trad. Leo Vinicius. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2005.
TIBERGHIEN, Gilles. Imaginário cartográfico na arte contemporânea: sonhar o mapa nos dias de hoje. Trad. Inês de Araujo. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 57, p. 233-252, 2013.
BEUYS, Joseph. Is It About a Bycicle? TATE. 2019. Disponível AQUI. Acesso em 11/12/2019.
DUCHAMP, Marcel. Roda de Bicicleta (1913). GOOGLE. 2023. Disponível AQUI. Acesso em 01/05/2023.
FERREIRA, Ariel. Se Correr, Se Ficar. Ariel Ferreira. 1 jul. 2013. Disponível AQUI. Acesso em 11/12/2019.
NEGRÃO, Renato, Partida do Sensível. Renato Negrão. 2020. Disponível AQUI e AQUI. Acesso em 09/09/2022.
Notas de Rodapé
[1] Conhecida como Igrejinha da Pampulha, o templo católico foi projetado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer e inaugurado em 1943 como parte do conjunto arquitetônico da Lagoa da Pampulha. O projeto ousado, assim como a presença das obras de Portinari, a tornaram um marco na paisagem de Belo Horizonte.
[2] Strava é um aplicativo de monitoramento esportivo usado como uma rede social para monitoramento via GPS e compartilhamento de atividades com outros praticantes ao redor do mundo.
[3] Relive é um aplicativo que permite acompanhar atividades ao ar livre como corrida ou pedalada, gerando animações virtuais do percurso realizado no mapa e registrado via GPS.
[4] O multiartista fluminense viveu de 1899 a 1973. É considerado um dos nomes mais importantes do movimento modernista brasileiro. Suas propostas muitas vezes irônicas e ousadas, ajudaram muitos artistas a enfatizar o corpo em suas produções e a lhe considerarem um dos pioneiros da prática conhecida performance nas artes visuais.
[5] O pintor viveu de 1912 a 1956. É uma referência mundial do expressionismos abstrato, sua técnica de pintura por gotejamento, com a qual utilizava toda extensão e movimentação do corpo na execução de suas obras, o tornou seu nome como um dos mais citados como inspiração dos artista que praticavam da performance nas artes visuais.
[6] Vivendo de 1921 a 1986, atuou misturando arte e política, sobretudo na segunda metade do séc. XX quando se tornou um dos artistas alemães mais influentes. Pioneiro do movimento ambientalista na Alemanha foi fundador do Partido Verde.
[7] O artista francês viveu de 1887 a 1968. Considerado um dos mais importantes nomes da arte do século XX, foi um dos precursores da arte conceitual e referência para inúmeras das práticas dos artistas contemporâneos. Para imagens do trabalho ver: DUCHAMP (2023).
[8] Tendo vivido de 1932 à 2006, o artista sul-coreano é considerado o pai da videoarte e referência para diversos artistas na arte eletrônica.
[9] Nascido em 1960 o artista mineiro é considerado um dos pioneiros da videoarte nacional. Suas propostas híbridas são reconhecidas por se mesclarem com o início da produção das novas mídias nas artes visuais, abrindo diferentes caminhos de experimentação.
[10] Artista, curador e professor, o pintor mineiro do Vale do Jequitinhonha desdobra as tradições populares no cenário das cidades. Atualmente leciona na Escola Livre Arena da Cultura, da Prefeitura de Belo Horizonte.
