Neste episódio do podcast F(r)icções, o editor-chefe Márcio Andrade conversa com a curadora, pesquisadora e curadora Carla Italiano sobre os deslocamentos das escritas de si do íntimo ao espaço público.
A partir de sua trajetória entre pesquisa acadêmica, docência e curadoria, a conversa aborda a presença crescente do cinema autobiográfico em festivais, mostras e dossiês críticos, discutindo questões de recepção, mediação e responsabilidade curatorial.
O episódio reflete sobre como a curadoria participa ativamente da construção de sentidos políticos e coletivos das imagens de si, tensionando os limites entre intimidade, circulação e disputa pública das narrativas em primeira pessoa.
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Ficha Técnica
Roteiro e Apresentação – Márcio Andrade
Edição – Priscila Nascimento
Produção – Janaína Guedes
Arte de Capa – Paula K
Edição de Materiais Gráficos – Rodrigo Sarmento
Coordenação Geral – Márcio Andrade
Realização – Combo Multimídia
Incentivo – Lei Paulo Gustavo – Edital Geraldo Pinho (Prefeitura do Recife)
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Referências
DEVIRES – cinema e humanidades / Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) – v.14 n.2 (2017)
ITALIANO, Carla. Senti que me partia em mil pedaços: aproximações entre as escrituras fílmicas de David Perlov e Jonas Mekas. 2015. 159 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015
ITALIANO, Carla. Dois festivais de documentário sob uma perspectiva feminista: forumdoc.bh e CachoeiraDoc (2010–2020). Rebeca – Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, ano 11, n. 1, p. 161–180, jan./jun. 2022
ITALIANO, Carla Alice Apolinário. Sou sujeito / estou sujeita: formas de autoinscrição no cinema experimental de mulheres (EUA, 1990–1993). 2024. 266 f. Tese (Doutorado em Comunicação Social) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2024.
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Transcrição
Márcio
Olá, pessoal, meu nome é Márcio Andrade e esse é o Fricções. Esse é um podcast que integra um projeto de pesquisa sobre as diversas formas de escritas autobiográficas e autoficcionais no campo do cinema e do audiovisual. Além desse podcast, a revista digital conta com um conjunto de ensaios e vídeo-ensaios que abordam as escritas de si em diferentes formatos: a carta fílmica, o ensaio, a autoficção, a autoetnografia.
Márcio
Então, a partir desses diversos ângulos, a gente pretende compor um panorama das reflexões mais recentes em torno da escrita em primeira pessoa e as suas variadas modalidades. E o tema desse podcast é “Do íntimo ao público: curadoria, recepção e política das imagens de si”.
[Trilha de transição]
Márcio
Quando a gente fala de escritas no cinema hoje, a gente está lidando com um fenômeno que é amplo, visível tanto na produção quanto na circulação de filmes, que vai atravessar festivais, mostras, debates e também a pesquisa acadêmica. Ao levar essas reflexões para o cinema, a autobiografia deixa de ser apenas um gesto de enunciação, que é pessoal, e vai envolver modos de organizar a experiência a partir de procedimentos que são éticos, estéticos, narrativos também, e que vão transformar o vivido em linguagem.
Márcio
E, nesse cenário, essa presença cada vez mais forte de filmes nos festivais vai levantar algumas questões que são importantes pra gente pensar. Por exemplo, quais condições históricas, políticas e institucionais vão tornar esse tipo de narrativa tão recorrente nos últimos anos? Ou também como a curadoria vai participar ativamente também nesse processo, quando ela seleciona, ela agrupa, ela coloca essas obras em diálogo também.
Márcio
Então, programar um filme ao lado de outro, criar nessas constelações temáticas, estéticas vai provocar fricções, atritos entre experiências que são distintas, mas também produzir leitura crítica, intervir no modo também como essas narrativas são compreendidas pela gente. E a pesquisa acadêmica, por sua vez, não apenas acompanha esse movimento, mas também vai tensionar esse mesmo movimento. Ela vai ajudar a historicizar essas práticas, identificar algumas continuidades, também rupturas, pensar também os riscos desse lugar que possa parecer ensimesmado, autocentrado demais.
Márcio
Ou talvez há o risco da fórmula ou da espetacularização da intimidade também. Ou seja, vai abrir um campo híbrido em que teoria, curadoria e prática cinematográfica vão se contaminar entre si. E, para aprofundar nessas questões, esse episódio vai receber Carla Italiano, que é curadora, pesquisadora, professora também, que tem uma trajetória que atravessa a pesquisa acadêmica, a docência e a atuação em festivais e mostras de cinema.
Márcio
E eu convidei Carla para esse podcast porque eu acredito que o trabalho dela se construa justamente nesse entrelugar entre pensamento crítico e prática curatorial e vai acompanhar de perto essa presença crescente das figuras de si no cinema dos últimos anos. E, para iniciar essa conversa, eu pedi à Carla que ela se apresentasse falando sobre como o cinema vai entrando na sua formação e de que maneira.
Márcio
Ao longo do tempo, a pesquisa, o ensino e a curadoria foram se entrelaçando no seu percurso.
Carla
Bom, na verdade, eu costumo me apresentar mais como curadora do que como pesquisadora e docente, professora, que acaba sendo minha atividade principal. Já tem quase 15 anos fazendo agora. Eu sou, inclusive, recifense. Eu costumo colocar isso na biografia para não ser confundida erroneamente, porque eu saí de Recife com dez anos e morei em vários outros lugares e estou sediada em Belo Horizonte já tem justamente 15 anos também.
Carla
Então é isso. A minha trajetória transitou por alguns lugares do Brasil, que também traz perspectivas diferentes, mas a minha formação básica, graduação em cinema pela UFSC, lá em Florianópolis, seguindo com pesquisa acadêmica, mestrado, doutorado em Comunicação Social no PPGCOM da UFMG. E aí, já no mestrado e doutorado, com um viés específico nas escritas de si.
Carla
Nesse universo particular, então, esse já tem alguns anos e alguns esforços assim que estão convergindo para isso. Mas, na verdade, eu diria que meu interesse por cinema, claro, nasce na graduação, mas é algo natural e que vem se… natural, eu digo assim, já estava se apresentando antes. Já foi um… e culminou, digamos, nesse estudo mais formal, na graduação.
Carla
Mas já era, isso era algo que aparecia na vida e, desde então, já venho trabalhando com o cinema exclusivamente. E aí, especificamente, eu acho que o que talvez torna mais singular nessa trajetória é essa relação entre a pesquisa na academia e a pesquisa no campo da curadoria, com mostras e festivais de cinema que eu já trabalho há um tempo.
Carla
Assim, talvez mais especificamente nomeando, tem o festival que participo há nove anos em Curitiba, que se chama Olhar de Cinema. Toda a equipe de curadoria desde 2017, o ForumDoc BH, o Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte, que tem esse recorte específico. Eu já faço parte desde 2011 e alguns outros mais pontuais. E, atualmente, o que eu tenho mais trabalhado mais detidamente é o cinema experimental.
Carla
Em Belo Horizonte também tem a Fenda, festival experimental de artes fílmicas, e com algumas mostras independentes, assim, no CCBB, no Centro Cultural Banco do Brasil, enfim, em outros espaços. E acaba que é meu interesse e meu trabalho com cinema e, dentro de trabalhar com cinema, tem esse recorte específico da relação com o campo das práticas autobiográficas.
Carla
De um jeito bem amplo, acaba se desdobrando em pesquisas que estão tanto na academia, na produção de publicações, artigos, tese de doutorado, etc., e na docência, mas que também se atualizam, vão se alimentando por esse trabalho muito concreto dessas práticas em curadoria e programação. E aí, de diferentes maneiras.
Márcio
Quando a gente se aproxima dos filmes a partir da curadoria, as perguntas que a gente faz deixam de ser apenas sobre o que esses filmes contam ou sobre quem realiza esses filmes, mas passam a ser também sobre como eles se organizam no tempo e nos modos de circulação das obras. Pensar esse cinema exige acompanhar processos longos em diálogo direto com os deslocamentos e as mudanças de contexto.
Márcio
Ou seja, é um cinema que vai se inscrevendo no próprio percurso e não a partir de um projeto fechado, nem industrializado, empacotado. Na dissertação de mestrado que Carla desenvolveu durante suas pesquisas, ela analisa filmes-diário de cineastas David Perlov e Jonas Mekas, que foram sendo construídos a partir de um registro contínuo do cotidiano. Essa dissertação se chama “Senti que me partia em 1000 pedaços: aproximações entre as escritas fílmicas de David Perlov e Jonas Mekas”, e analisa essas obras que vão tomar o diário não apenas como tema, mas como método de trabalho.
Márcio
Ela começa a entender como filmar pode ser um hábito, ou seja, filmar também como uma forma de atenção ao mundo, como uma maneira de organizar o tempo, de lidar com a memória, sem necessariamente pensar nessa ilusão da totalidade do tempo da vida como uma obra fechada. E esses filmes vão articular vida e imagem de um modo que acho que é bastante radical, porque eles são atravessados por experiências de deslocamento, de exílio, de uma sensação de ser estrangeiro também.
Márcio
Então, a câmera vai acompanhar o ordinário, vai acompanhar os fragmentos de repetições, mas também vai inscrever marcas históricas e políticas que atravessam as trajetórias desses cineastas ao longo do tempo. Então, do ponto de vista curatorial, olhar para esse tipo de produção muitas vezes vai implicar pensar como essas obras vão se comunicando entre si, quais diálogos elas vão produzir quando estão colocadas em constelação, em aproximação e de que maneira elas podem ajudar a gente a compreender a presença cada vez mais expressiva dos filmes autobiográficos nos festivais e mostras nos últimos anos, como é que eles influenciam até hoje outros realizadores mais recentes.
Márcio
Então, programar esses filmes é também lidar com essas temporalidades distintas, com obras que vão desafiar formatos convencionais de exibição e vão convocar outras formas de escutar, outras formas de pegar, de capturar a atenção do público. E, para continuar nossa conversa, perguntei a Carla como foi esse encontro com os filmes que ela analisou no mestrado e como é que foi o percurso dela na pesquisa.
Carla
O trabalho no mestrado foi minha primeira incursão, digamos, nesse universo das escritas de si. E foi por acaso. Sempre é, né? Não era nem o projeto de entrada no mestrado, era… tinha um interesse em trabalhar com cinema do Jonas Mekas, realizador lituano radicado nos Estados Unidos, muito importante para o cinema experimental e hoje muito conhecido e muito celebrado. Tinha interesse em trabalhar com o cinema dele, mas a partir de questões talvez mais ligadas à forma, enfim, mas ligadas a uma perspectiva mais experimental, a relação com o território.
Carla
E, no curso da pesquisa de mestrado, que foi feito com orientação do professor André Brasil, na época, eu fui entendendo que o que me interessava muito era essa relação muito particular entre vida e filme, entre viver e filmar. Filmar no sentido expandido. Assim, de que, na vida, é aquela pessoa, e depois entrou outro realizador, o David Perlov, que eu posso falar um pouco dele, que essas pessoas na vida se tornavam os filmadores, os que faziam filmes que registravam tudo, e no filme a própria ideia de filme se alterava, de certa forma.
Carla
Então, não era um processo de iniciar um projeto de filme com pré-produção, produção, finalização etc. Eram processos muito alargados no tempo, de anos, décadas, muitas vezes duas, três décadas, registrando sem um projeto, um objetivo claro de qual filme que ele seria, mas do próprio processo de entrelaçar o viver e o filmar, a vida e o filme. E foi isso que me moveu um pouco.
Carla
E eu cheguei nesses dois nomes: o David Perlov, o realizador nascido no Brasil e radicado em Israel, Tel Aviv. Realizador judeu e que transitou também por vários lugares, vários países, Paris, enfim, tem um certo signo de ser estrangeiro, e os dois realizadores partiam um pouco disso: ser, estar em exílio e ser estrangeiro mesmo na própria casa.
Carla
O Mekas sempre foi o poeta lituano em Nova Iorque, então esse ser estrangeiro também era trazido um pouco para a própria forma dos seus filmes. É algo que movia esses filmes. Eu fui chegando nessa forma, não na forma, né? Mas na indagação em relação ao diário, entendendo que diário não tem uma forma própria. Nele cabe tudo, né? Justamente essa grande liberdade de ter desde anotações muito pequenas, digamos, sobre as pequenas variações do dia a dia, até reflexões conceituais, metafísicas, existenciais etc.
Carla
Tudo pode nessa forma do diário, desde que tem essa ancoragem na passagem dos dias, que lhe dá uma… Maurice Blanchot fala isso muito, essa âncora dessas asperezas do dia a dia, que permite uma concretude para a coisa. E aí eu fui e cheguei nessa questão do diário, essa expressão específica, filme-diário, assim, que diz esses processos desses filmes muito, muito longos no tempo, que entrelaçam de forma muito, muito complexa o que é viver, o que é filmar.
Carla
E eu cheguei nessa pesquisa e nesses dois realizadores a partir disso. E o trabalho tem como título Senti que me parti em 1000 pedaços: aproximações entre as escrituras fílmicas de David Perlov e Jonas Mekas. Tem essa ideia da escritura fílmica também, que me interessava na época, assim. E aí isso foi o pontapé, digamos assim, o primeiro passo em direção a esse campo das histórias autobiográficas, do qual eu nunca mais saí.
[Trilha de transição]
Márcio
Desde a sua invenção, o campo do documentário foi marcado por uma busca por certa objetividade, por um desejo de falar do mundo a partir de um certo distanciamento, digamos assim, como se a presença de quem filma precisasse sempre ser, de certa forma, atenuada ou ocultada para garantir um ideal de legitimidade ao gesto de filmar e registrar.
Márcio
Então, ao longo do tempo, essa lógica começou a ser tensionada e a presença do realizador passou a se tornar mais visível, não como uma confissão gratuita ou só como um desejo de aparecer, de se colocar como imagem, mas como um reconhecimento de que toda imagem também é atravessada por um ponto de vista. O que antes aparecia como uma neutralidade começou a ser compreendido como uma construção, com uma concepção, com a constituição de um olhar.
Márcio
E o documentário passou a lidar de forma mais consciente com a dimensão subjetiva do olhar. E, nesse percurso histórico, as narrativas em primeira pessoa foram muitas vezes recebidas com uma certa desconfiança. Então, falar de si parecia incompatível com a ideia de tratar de questões coletivas, sociais ou até mesmo políticas, como se a experiência pessoal fosse, em si, um obstáculo para pensar o outro e o mundo ao redor.
Márcio
Mas inclusive os próprios filmes foram mostrando esses caminhos distintos. Ou seja, ao assumir a subjetividade como parte de um processo, como parte desse processo de criação, muitas dessas obras passaram a construir formas críticas de relação com a realidade, revelando que o eu pode funcionar como ponto de acesso a experiências que são compartilhadas, a memórias coletivas e a tensões históricas que são mais amplas também.
Márcio
E esse movimento também acompanha transformações culturais mais abertas, em que a presença do sujeito nas imagens vai se tornar cada vez mais explícita. Ao mesmo tempo, vai exigir também uma atenção constante aos riscos que existem nesse processo, ou seja, o ensimesmamento, a espetacularização da intimidade, que vão atravessar tanto o cinema quanto outras formas de produção de imagens no contexto contemporâneo.
Márcio
E é nesse contexto que se inserem as pesquisas de Carla Italiano. Porque ela fez essas pesquisas de mestrado entre 2013 e 2015, quando o fenômeno dos documentos biográficos não era tão amplamente estudado na universidade brasileira. E eu sei disso porque foi justamente esse período em que eu iniciei as pesquisas para entrar no doutorado, em 2015, na UERJ.
Márcio
E a literatura disponível ainda se mostrava restrita. E nem os filmes eram tão acessíveis também. Então, considerando esse contexto, eu perguntei à Carla sobre quais eram os desafios da sua pesquisa durante o período em que ela mesma fez o mestrado.
Carla
É curioso porque eu acho que algumas das questões que apareceram naquele momento, eu terminei o mestrado em 2015, reapareceram depois de outras maneiras, principalmente quando entrou um corte na minha vida como pesquisadora, que eu vou falar logo mais, que é um corte de gênero, que começa a pesquisar perspectivas feministas na relação com as escritas de si. Quando entra esse corte, muda e muda tudo, desestabiliza tudo.
Carla
Mas as questões, algumas das questões permaneciam, talvez as mesmas, no mesmo universo das que já estavam presentes nessa pesquisa de mestrado, em que eram dois realizadores homens e eu sequer me questionava sobre gênero. Não estava dado, não era? Era natural que fossem dois homens e isso não era falado. Só quando você começou a falar sobre mulheres é que se percebe que tem questões muito particulares para cada um, cada existência.
Carla
Mas talvez eu diria que, na verdade, dando um passo, não sei para trás, mas ao lado, há uma perspectiva formativa da minha trajetória que antecede a da escrita de si, que é o cinema documentário e, em particular, o documentário etnográfico, que está muito associado a essa experiência com esse festival em Belo Horizonte que eu falei, o FórumDoc BH. E eu fui percebendo, ao longo do tempo, que existia uma espécie de desconfiança dentro do pensamento acerca do documentário, seja documentário brasileiro, estrangeiro, enfim, dessas perspectivas em primeira pessoa, como se elas fossem, de partida, automaticamente solipsistas, enfim, individualistas, com um horizonte narcísico, como se fosse quase impossível falar do outro por meio, a partir desse exercício, desse gesto de falar também de si e construir o eu.
Carla
E essa desconfiança, algo que permanece, eu acho que até hoje, ela foi ganhando outros contornos, outros ares, a partir dos próprios filmes que os filmes nos trazem. Mas eu sempre senti um pouco essa desconfiança. Sim, eu acho que esse foi talvez um dos primeiros desafios. Eu sentia sempre um esforço, talvez redobrado, de minha parte, em justificar o porquê.
Carla
Por que está se pesquisando esse tipo de cinema, o que é relevante no contexto macro? Enfim, para se falar de questões coletivas, comunitárias, para se falar de um tecido social assim, por que está falando desses filmes que estão dizendo só de eu, eu e eu? Então, eu também me convencer disso, eu acho, por causa dessa minha formação da perspectiva, muito dentro do pensamento documental, de que falar das autoridades é quase como se fosse uma oposição.
Carla
Não é possível falar a partir de um eu. Então, talvez esse foi um primeiro desafio que me moveu e que acho que permaneceu também, assim, que é entender que, na verdade, o gesto cinematográfico que me interessava pesquisar e que me moviam e moviam as pessoas com quem eu estava em diálogo era justamente o que trazia perspectivas críticas, reflexivas, dentro desses movimentos de criação de subjetividade, de enunciação em primeira pessoa, de uma elaboração discursiva performática do eu.
Carla
No cinema, eram todos filmes que se reconheciam como construções na linguagem, pela linguagem. E que esses movimentos eram justamente os que permitiam construir algum sentido de coletividade. E é isso que eu fui… isso que eu vim pesquisando esse tempo todo, sabe? Assim, principalmente pensando num contexto que, e isso foi só se exacerbando, piorando, não só estourando com essa palavra, mas foi só intensificando.
Carla
E você trabalhando com isso desde 2015, quer dizer, desde antes, mas em 2015 já estava. Era muito diferente de como é hoje, mas é esse horizonte do que a Paula Sibilia chama do “show do eu”, que essa espetacularização… Essa hipertrofia, assim, do individual, do pessoal etc., que tem consequências e perigos muito claros. A gente vive isso diariamente, mas eu acho que, enquanto pesquisadora e enquanto alguém engajado nessa relação com o cinema crítico, eu acho que foi uma coisa que fui aprendendo e entendendo ao longo do tempo, que é o que me interessava e o que interessava.
Carla
Essas pesquisas que me inspiravam também eram esses filmes, esses gestos tanto criativos de quem faz os filmes, mas também analíticos de quem pesquisa, que estão em busca desses movimentos que postulam um outro caminho, que não é o que cai na armadilha do ensimesmamento. Quais são as outras possibilidades de escritas de si no cinema que produzem algo que não se encerra no próprio… isso no próprio espelho.
Márcio
Ao longo do século XX, especialmente no campo do documentário experimental, no cinema experimental, vão surgir obras que vão recusar certa linearidade e vão assumir, de certa forma, a instabilidade como método, entendendo que a memória vai se organizar também em lacunas e retomadas dos vestígios que compõem essa memória. Nesse movimento, o documentário deixa de buscar uma visão totalizante e passa a trabalhar com o recorte, com a parcialidade, com a consciência de que toda imagem é situada.
Márcio
Ela possui um ponto de vista, um ponto de origem. E é nesse contexto histórico que as escritas de si vão ganhar força como prática crítica, como um modo de pensar corpo, história e pertencimento a partir da própria experiência, mas sempre em relação com dinâmicas coletivas mais amplas. E essas são questões que vão atravessar, de forma central, a tese de doutorado de Carla, que é intitulada “Sou o sujeito/estou sujeita: formas de autoinscrição no cinema experimental de mulheres nos Estados Unidos entre 1990 e 93”.
Márcio
Que investiga formas de autoinscrição do cinema experimental de mulheres no início dos anos 90. A tese vai colocar em diálogo filmes como Sink or Swim, de Su Friedrich, em que memória familiar, sexualidade e montagem fragmentada vão articular essas dimensões íntima e política do sujeito.
Márcio
Finding Christa, de Camille Billops, que vai transformar uma experiência pessoal marcada por julgamentos morais em um gesto cinematográfico que é atravessado por raça, por família, por comunidade. E os vídeos autobiográficos de Cheryl Dunye, que foram realizados no início dos anos 90 também, e vão combinar performance, ficção e autorrepresentação para representar algumas questões como desejo e identidade também. Então, quando ela aproxima essas obras, a pesquisa de Carla vai evidenciar como cada gesto autobiográfico constrói estratégias próprias para lidar com o corpo, com o tempo, com a memória, com a identidade, com a coletividade também.
Márcio
Então, mais do que propor uma definição estável de autobiografia, a pesquisa de Carla habita as diferenças entre essas práticas e vai revelar os limites e as potências do cinema como esse espaço de autoinscrição. Para seguir com essa conversa, eu pedi à Carla que ela falasse sobre como esse percurso da tese também continuou tensionando os modos dela pensar o documentário autobiográfico até hoje.
Carla
Na tese, a pesquisa já vai para um outro caminho e com outro fôlego. Não só porque era uma pesquisa de doutorado, mas de desafios de mais tempo, mas justamente por causa dessa entrada dessas questões de gênero, né? E gênero, obviamente, indissociável de vários outros recortes sociais historicamente construídos. E, no caso da pesquisa, foram dois os elencados de construção de raça, sobretudo com mulheres negras, e de orientação sexual, com duas dessas três realizadoras autodeclaradas mulheres lésbicas.
Carla
Então, na verdade, o que se abre com essa pesquisa são novas perguntas que não necessariamente trazem respostas, mas permitem justamente a gente habitar essas perguntas de outra maneira. A minha intenção ao construir essa proposta de pesquisa na tese era também me indagar sobre esse campo das escritas de si. Porque eu senti que, ao colocar lado a lado experiências tão diferentes que, a princípio, entre aspas, poderiam caber no mesmo guarda-chuva, seja dessas formas de autoinscrição, seja no tipo de cinema feminista, seja no tipo de cinema experimental, enfim, na verdade o que cada prática e cada experiência revelou é que não se trata das mesmas palavras.
Carla
Não se trata das mesmas possibilidades de habitar o mesmo lugar, assim, conceitual, analítico, enfim. Não é isso. Então, foi muito interessante e foi um aprendizado muito grande também, ao longo da pesquisa, perceber como cada uma dessas diretoras e seus filmes, na verdade, me fazia questionar a própria ideia de escrita de si de maneira muito diferente. E assim são três, cada uma delas com direções diferentes.
Carla
Embora as três estivessem trabalhando ali no finalzinho dos anos 80, começo dos 90. A tese tem esse recorte. Ela tem como título “Sou sujeita/estou sujeita: formas de autoinscrição no cinema experimental de mulheres de 1990 a 93”. Então, todas estavam trabalhando no mesmo contexto, três realizadoras estadunidenses residentes da costa leste, entre Nova York e Filadélfia. Então, num contexto histórico, digamos, elas eram contemporâneas.
Carla
Mas o que essas práticas revelam é que essas diferenças, que a gente chama também nos estudos feministas de posicionalidade, dessa maneira de estar no mundo, enunciar-se no mundo e construir-se também, eram tão díspares que era quase impossível dizer que se tratava das mesmas, não mesmas, mas, enfim, que elas compartilhavam, digamos, um mesmo universo de práticas autobiográficas.
Carla
E isso eu não falo assim, é impossível enunciar, justamente porque essas experiências traziam formas de lidar com a ideia de eu e de nós de maneiras muito diferentes, por vezes opostas. Então, a proposta da pesquisa era justamente identificar as estratégias de construção de ponte entre as perspectivas pessoais, experiências pessoais e experiências coletivas. Essa ideia da primeira pessoa, no singular e no plural, ao mesmo tempo, simultaneamente no singular e no plural.
Carla
Então, como, por exemplo, a Su Friedrich, que é a realizadora lésbica, começa a trabalhar no final dos anos 70, começo dos anos 80, com os seus trabalhos, especificamente o filme que eu pesquiso, Sink or Swim, que você mencionou, mas vários outros dela. Filmes que permitem a gente pensar como a maneira de enunciar, construir uma ideia de subjetividade, de eu mesmo, era muitas vezes inseparável dessa possibilidade de criação de uma ideia de coletividade sapatão, uma ideia de sermos mulheres.
Carla
Mas, ao mesmo tempo, quando essa ideia ali construída era colocada ao lado do trabalho da Camille Billops, que é uma realizadora negra americana, muito vinda das artes visuais, no documentário experimental, que decai ali um pouco no cinema como uma arte possível dela — ela era multiartista —, o cinema aparece depois, e começa a falar sobre as histórias da sua própria família.
Carla
Em determinado momento, ela vai falar da história da vida dela com o filme que se chama Finding Christa, “Procurando Christa”, e que ela faz com a mulher que foi a filha que ela entregou para adoção quando a menina tinha quatro anos de idade. Elas se reencontram anos depois, fazem esse filme contando essa história. Então, é uma história difícil, em que ela, a Camille, é julgada do começo ao fim por diferentes pessoas, e ela sustenta seu ato, sustenta o seu gesto.
Carla
Então, a maneira como a subjetividade da Camille e a subjetividade familiar e comunitária, ali num contexto afrodiaspórico de Los Angeles, enfim, muito particular, se constrói quando eu coloco ao lado da experiência e, principalmente, da construção de linguagem que a Su Friedrich faz, que a Cheryl Dunye faz… são mundos absolutamente distintos. Então, essa pesquisa me fez questionar, na verdade, o universo dessas práticas autobiográficas.
Carla
A própria ideia do autobiográfico, sabe? E quem pode dizer “eu”? A quem historicamente foi permitido dizer “eu” e delimitar isso como enunciação possível? E a quem é o eu? O eu sempre foi um nós. É impossível dizer “eu” sem dizer “nós”, mas de diferentes maneiras. E a Cheryl Dunye, que é essa terceira que você comentou, ela já é uma outra geração.
Carla
Ela começa no vídeo no começo dos anos 90. Eu trabalho com alguns curtas em vídeo, muito artesanais, experimentais, no sentido “faça você mesmo”, com seu grupo de amigas, das pessoas que estão à sua volta, muito ligado ao universo também acadêmico, universitário. Ela tinha acabado de terminar a graduação e entrado no mestrado. Então, tem uma coisa, um vigor, uma jovialidade que vem com essa experiência e com a forma do vídeo e da videoarte.
Carla
Então, já se colocando como mulher preta, sapatão, como um ponto de partida para estabelecer outras relações com o cinema, muito também atravessado pela estratégia da ficção, da encenação, da performance. Então, outro caminho é isso: colocar essas experiências uma ao lado da outra e, sobretudo, essas escolhas de estratégias de linguagem fílmica, de como lidar com os sons e as imagens, como lidar com o próprio corpo em cena, como lidar com o próprio corpo em relação ao das outras mulheres.
Carla
Tudo isso foi me revelando quase impossibilidades de usar os mesmos termos, sabe? Isso também se volta para esse universo das escritas de si de maneira muito potente. Eu não acho que inviabiliza mobilizar esse campo, mas me parece que coloca outro desafio, sabe?
[Trilha de transição]
Márcio
Ao longo das últimas décadas, especialmente no circuito de festivais, o documentário foi incorporando, de maneira cada vez mais explícita, alguns processos ensaísticos e gestos autobiográficos que vão deslocar a ideia de registro objetivo para um cinema que é marcado pela experiência situada no tempo e no espaço. E esse movimento acompanha transformações que são mais amplas, mesmo no acesso aos meios de produção e na circulação das obras também.
Márcio
Vão permitindo que sujeitos historicamente afastados desses espaços, desses regimes de imagem, passem também a ocupar o centro da cena. Então, o documentário passa a ser atravessado por percursos identitários e experimentações formais que vão cada vez mais colocar esse vivido como um ponto de partida para pensar o mundo. E essas mudanças vão aparecer de forma muito significativa em festivais, ou seja, filmes em primeira pessoa.
Márcio
Eles passam a ser exibidos em festivais cada vez mais, em festivais brasileiros e internacionais, no campo do documentário também. E tem um artigo escrito por Carla que se chama “Dois festivais de documentário sob uma perspectiva feminista: ForumDoc.bh e Cachoeira Doc entre 2010 e 2020”, em que ela vai analisar a presença de filmes em primeira pessoa que foram exibidos ao longo de uma década em dois importantes festivais brasileiros de documentário.
Márcio
E, a partir desse mapeamento, o texto evidencia um crescimento expressivo, tanto quantitativo quanto qualitativo, de obras realizadas por mulheres e por pessoas LGBTQIAPN+, negros e indígenas, que vão reivindicar a autobiografia não como um fechamento em si, mas como uma estratégia crítica e política. O artigo mostra como essa guinada autobiográfica não se reduz a um único modelo de filme.
Márcio
Pelo contrário, ela se desdobra em práticas que são muito diversas, que vão do diário ao ensaio, do gesto performativo à investigação familiar, sempre tensionando os limites entre o íntimo e o coletivo. Ao mesmo tempo, o texto não deixa de apontar os riscos desse movimento, especialmente quando a primeira pessoa pode se esvaziar em fórmulas ou se fechar em narrativas que não constroem pontes com o outro.
Márcio
E, para quem atua na curadoria, esse cenário torna visível um desafio constante: como acompanhar esse crescimento? Como colocar obras em diálogo e como distinguir gestos que se colocam em processo daqueles que apenas reforçam certezas que já estão dadas? Pensando nesse percurso, eu pedi à Carla que ela desdobrasse um pouco mais as reflexões em torno dessa presença exponencial das narrativas em primeira pessoa.
Márcio
Em festivais e amostras de cinema, considerando, inclusive, seu trabalho na curadoria desses festivais.
Carla
É ótimo perguntar isso, porque, como eu disse, para mim é meio inseparável a pesquisa acadêmica e as pesquisas que acontecem nesses espaços de curadoria, de mostras, festivais etc. Então, aprendo muito nos dois lados, esses aprendizados se contaminam. E eu queria partir, na verdade, de um artigo que eu publiquei em 2022, que tem alguns anos já, na Rebeca, que eu vou até nomear certinho: se chama “Dois festivais de documentário sob uma perspectiva feminista: Fórum Doc BH e Cachoeira Doc 2010–2020”.
Carla
E eu trago esse texto porque nele eu fiz uma espécie de mapeamento dos filmes em primeira pessoa realizados por mulheres que foram exibidos nesses dois festivais de documentário entre 2010 e 2020. E esse é, claro, um texto que está falando sobre perfis de cinema documentário, perfis de festival e um dossiê de festivais, mas está falando sobre a presença desse tipo de cinema com o recorte de realização por mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e, mais especificamente, nesse recorte de 2010 e 2020.
Carla
Eu acho revelador porque existe um aumento exponencial expressivo do número, em termos quantitativos. Numericamente, aumentou muito o número de filmes que são exibidos nesses dois festivais, mas isso reflete o movimento geral que está dizendo de vários outros espaços, não só no Brasil, como no mundo. Enfim, existe essa guinada autobiográfica. Fala-se muito da guinada subjetiva, mas é isso.
Carla
Nos últimos 15, 20 anos, no campo da exibição e difusão de cinema, essa guinada para a primeira pessoa é incontornável. Para quem faz curadoria, isso fica muito evidente. Há 10 ou 15 anos, a quantidade de filmes que a gente recebia, inscritos, que eram realizados e que circulavam — estou falando especificamente do campo documental ensaístico, não estou falando de ficcional —, a quantidade é exponencialmente muito maior.
Carla
Então, nesse artigo, até comento que lá em 2010, 2011, nesses festivais, eram um ou dois filmes que passavam por ano, enquanto em 2020 já eram dezenas. Então, existe uma aposta, um investimento muito grande, particularmente da parte de sujeitos que historicamente foram apartados desses meios de produção, dessas formas de acesso a criações artísticas e, especificamente, ao cinema.
Carla
E essa, nesses últimos anos — vamos colocar os últimos 15 anos —, marcou mesmo uma mudança muito grande nesse sentido. Isso se reflete na quantidade de filmes e nos tipos de filme que são exibidos. Então, o que eu quero dizer: não são só filmes, mas filmes de mulheres que começaram a estar nesses espaços, mas também filmes de mulheres que estão reivindicando uma perspectiva de primeira pessoa.
Carla
E aí também filmes de pessoas negras, filmes de pessoas indígenas, filmes de perspectivas queer de diferentes maneiras. Então, esses sujeitos, que eu me recuso a chamar de novos, porque não são, têm um aumento expressivo da presença na autoria desses sujeitos, e isso é inseparável da aposta nesse tipo de estratégia em primeira pessoa no campo autobiográfico.
Carla
Então, para quem trabalha com curadoria, e voltando à pergunta, para quem vem acompanhando há um tempo, é muito enriquecedor ver esse processo acontecer em primeira mão e, claro, intervir nele de alguma maneira pelo que a gente programa. São produções muito diversas que também recaem em diversos riscos, os próprios riscos de ensimesmamento que a gente estava falando pouco antes.
Carla
Várias dessas produções arriscam cair nisso, não estão imunes. Quando eu digo ensimesmamento, é o tipo de construção que não está interessada em construir ponte com outras ou com outros, só reforçar suas próprias convicções. Então, não tem muito por que fazer um filme, me pergunto.
Carla
Então, eu estou falando desses riscos entre os tipos de filme que estão, de fato, buscando estabelecer diálogos e pontes, ampliar horizontes de relação e se colocar para jogo também, se colocar em risco, se colocar em processo de construção, revelar-se como processo de construção permanente, e outros que não estão, na verdade, se protegendo.
Carla
Então, é isso: existe um aumento numérico expressivo e, claro, um refinamento mesmo dessas estratégias ao longo do tempo, pensando nesses últimos 15 anos. Hoje, tanto no cinema brasileiro, sobretudo em curta-metragem, mas não só em longas também, quanto no cinema internacional, documental, ensaístico, performático, há uma quase onipresença de recursos, de procedimentos.
Carla
E não só o filme como um todo, mas partes dele sempre vão recorrer, de alguma forma, a perspectivas em primeira pessoa e autobiográficas, o que abre novos problemas, porque tudo que vira uma fórmula se esvazia de sentido. Então, enfim, só para também trazer coisas mais concretas, eu queria comentar de algumas curadorias que eu fiz recentemente, nos últimos anos, que exemplificam um pouco isso.
Carla
Existe uma que está disponível, ficou disponível, mas está registrada na plataforma da Embaúba Play, que é uma distribuidora de cinema brasileiro importante, que se chama Embaúba Play convida Carla Italiano, e eu fiz uma curadoria que se chamava Ser Imperfeita: modulações de um cinema de experiência pessoal brasileiro, reunindo alguns filmes brasileiros de mulheres. Isso foi em 2022, mas está registrado ainda na plataforma, e algumas mostras também ligadas a essas pessoas que eu pesquisei na academia, justamente essa contaminação.
Carla
Em 2013, eu fui uma das curadoras, muito tempo atrás, de uma retrospectiva do Jonas Mekas no Forumdoc BH, junto com Carla Maia. A gente exibiu vários filmes em 16 milímetros e depois, com essa pesquisa, junto a outras mulheres, uma mostra da Su Friedrich no Olhar de Cinema, que se chama Su Friedrich e Outras Imagens do Invisível, que eu fiz em colaboração com Carol Almeida e Camila Macedo, e uma retrospectiva da Camille Billops também aqui em Belo Horizonte, ano passado, com curadoria compartilhada com a Janaína Oliveira. Então, tem uma série de atividades que vão se alimentando e, sobretudo, só para terminar um pouco esse pensamento curatorial.
Carla
Assim, talvez o que é mais instigante é montar uma programação e montar uma sessão e reunir trabalhos que estão pensando ou estão reivindicando, de diferentes maneiras, esse universo dessas práticas. Pensar que, ao colocar lado a lado, o que essas faíscas geram de reflexão, de separação, de diferença, de parecença, de novas possibilidades de refletir sobre o que significa isso.
Carla
Esse gesto de se filmar ao mesmo tempo à frente e atrás da câmera, que não é uma dupla incidência tranquila, é sempre muito complexa. Então, esses gestos curatoriais também como metodologia são algo que eu trabalho na tese, principalmente no final, reivindicando isso como uma metodologia possível feminista. Essas práticas curatoriais alimentam também, sabe, o que tem de conceitual desse universo das escritas de si mesmo.
Márcio
Considerando esse contexto da pesquisa como curadoria e a curadoria como pesquisa, a gente pode compreender como uma obra não se encerra no momento da criação. Ela continua acontecendo na recepção, nas sessões, nos debates, nas conversas posteriores, nos textos críticos que se escrevem a partir dela. Então, cada encontro reabre a narrativa, vai deslocar sentidos e criar vínculos que vão escapar ao controle inicial de quem realizou essa obra.
Márcio
E é justamente essa dimensão de circulação, de desdobramento que atravessa outro trabalho que faz parte da trajetória de Carla, que é o dossiê Cinema e Escrita de Si, que foi publicado na revista Devires, organizado por Carla em parceria com Roberta Veiga e Ilana Feldman. Esse dossiê surge como um esforço de sistematizar um campo em constante expansão, mas também como um espaço de abertura de novas perguntas, mais do que de fechamento conceitual.
Márcio
E os textos reunidos na revista abordam as escritas de si a partir de múltiplas entradas. Existem reflexões sobre o cinema diário, o ensaio cinematográfico, as práticas experimentais, análises que vão tensionar a relação entre memória, arquivo e montagem, ou textos também que colocam em primeiro plano questões de gênero, sexualidade, raça e posicionalidade. E o campo do autobiográfico aparece assim atravessado por disputas históricas e políticas, e não como um território neutro ou homogêneo.
Márcio
Entre as contribuições, a gente vê textos de autores como Alisa Lebow, Patrícia Mourão, Paola Labbé, Karla Holanda e Carlos Adriano, que vão dialogar com procedimentos de montagem, apropriação, autorrepresentação, trajetórias de cineastas, modos de circulação dessas obras e os limites entre intimidade e exposição pública. O dossiê dessa revista também reúne pesquisas que vão questionar os riscos daquilo que as organizadoras vão chamar de hipertrofia da intimidade, alertando para os perigos de um autobiográfico que seja esvaziado de dimensão histórica e coletiva também.
Márcio
Ao mesmo tempo, essa edição da revista evidencia como essas práticas autobiográficas se transformam ao longo do tempo, ou seja, textos mais históricos vão conviver com a análise de produções mais recentes, permitindo conceber como o campo das escritas de si hoje já não responde às mesmas questões de décadas atrás, estando cada vez mais atravessado por debates decoloniais, feministas e queer também.
Márcio
E, pensando nisso, eu pedi à Carla que ela comentasse sobre como esse dossiê da Devires ajudou a consolidar e, ao mesmo tempo, tensionar o campo das escritas de si, considerando a recepção crítica, a circulação de textos, o diálogo com outras pesquisas também.
Carla
Esse dossiê foi fundamental, da Devires, que é a revista de Belo Horizonte da UFMG, dossiê Cinema e Escritas de Si, que foi organizado por Roberta Veiga, Ilana Feldman e eu. Roberta Veiga, inclusive, foi minha orientadora no doutorado, uma pessoa muito importante também para essa minha entrada no universo das escritas de si. E esse dossiê, na verdade, foi lançado em 2020.
Carla
Era um processo que tinha começado antes do lançamento dele, foi durante a pandemia, e é resultado das pesquisas de cada uma dessas três organizadoras, de maneiras diferentes, mas que já trabalhavam com o universo das escritas de si há um tempo, e acolhendo esses artigos submetidos, enviados e convidados por pessoas que estavam pensando, à época, essas questões sobre diferentes caminhos, realizações diferentes, etc.
Carla
E esse dossiê, na verdade, talvez mais inaugure alguns interesses do que encerre. Eu sinto que ele está às voltas com realizadores muito importantes, por exemplo, Agnès Varda, Chantal Akerman. E tem um texto também de Carlos Adriano, pessoas que, na prática, já vêm trabalhando com isso.
Carla
Mas eu sinto também que a relação daqueles textos e daqueles pensamentos com a produção cinematográfica contemporânea brasileira tem uma distância. Talvez porque esses cinco anos revelaram muito isso. Talvez um outro dossiê hoje teria outras questões e outros filmes. Então, talvez, ele sistematize e organize questões fundamentais, fundantes, basilares para pensar o campo da escrita de si.
Carla
Muitos desses caminhos a gente já vem conversando aqui, num contexto contemporâneo dessa atrofia do político, hipertrofia da intimidade, a expressão que a gente usa lá no texto de apresentação, muito perigosa, de uma linhagem neoliberal, individualista, muito perversa, que está em tudo. Então, como o cinema pode reaver um potencial político e histórico mesmo para essa construção de subjetividade?
Carla
E é isso que essa publicação inspira, digamos. Eu acho que é uma inspiração que se espraia para várias outras iniciativas e que está nesses esforços de pesquisa, de análise, que se desdobram em várias outras pessoas que estão trabalhando com isso no campo da pesquisa acadêmica. Na verdade, eu acho que eu nem saberia dizer tanto. Eu talvez gostaria mais de ouvir.
Carla
Talvez eu tenha mais conhecimento na produção artística cinematográfica contemporânea. E aí eu acho que essa produção também, principalmente, em particular de autorias negras brasileiras e LGBTQIAPN+, é uma produção que inspira novas pesquisas. Então, eu sinto que é uma coisa que está se retroalimentando, o campo da pesquisa acadêmica e esse tipo de produção brasileira contemporânea, e vice-versa.
Carla
Então, eu sinto como um horizonte muito amplo, enriquecedor, mas que é obrigado a lidar com outras questões que não são as mesmas que estavam lá na bagagem literária do autobiográfico de 15, 20 anos atrás. Está muito longe, mas tem muito mais a ver com o pensamento decolonial, eu acho, hoje, e queer, do que com aquilo que era. Então, eu sinto que o horizonte é promissor, sim, mas também muito movido pelas próprias práticas artísticas. Eu me identifico um pouco nesse sentido.
Márcio
Ao longo dessa conversa, ficou evidente que pensar nas escritas de si no cinema passa cada vez mais por pensar seus modos de circulação. Não se trata apenas de como os filmes são feitos, mas de como eles são vistos, agrupados, debatidos e colocados em relação dentro dos circuitos públicos também. A gente fala de um conjunto de obras que ganham novas camadas de sentido quando entram em festivais, mostras, dossiês, programas curatoriais também.
Márcio
São filmes que, ao serem apresentados lado a lado, deixam de existir apenas como gestos isolados e passam a compor paisagens, tendências, tensões e perguntas sobre o próprio momento histórico em que surgem. E, nesse contexto, a curadoria aparece como um espaço decisivo para mediação, para a leitura crítica dessas obras. Quando a gente programa filmes autobiográficos, implica também lidar com os riscos, com as repetições, mas também com as potências, ou seja, a possibilidade de revelar diálogos entre experiências que são tão distintas.
Márcio
Ativar dimensões coletivas a partir de experiências singulares, de provocar esses deslocamentos também no olhar do público. E as perguntas que atravessam esse campo deixam de ser apenas “quem fala” ou “como se fala” e passam a incluir outras perguntas mais complexas. Por exemplo: o que se torna visível quando esses filmes circulam juntos? Ou que narrativas se fortalecem ou se esvaziam?
Márcio
Que critérios, recortes e responsabilidades estão em jogo ao dar centralidade a essas obras? Bom, então, as escritas de si continuam sendo produzidas na curadoria, na crítica, na recepção e no debate público. Um campo em permanente transformação, em que o encontro entre filmes, contextos e espectadores segue abrindo perguntas sobre o cinema e sobre o mundo que essas imagens ajudam a pensar também.
Márcio
Bom, pessoal, esse foi mais um episódio do F(r)icções, mas ele não termina aqui. Para quem quiser desdobrar os temas debatidos aqui nos pods e conhecer outros conteúdos do projeto, é só acessar o nosso site Friccoes.com, nosso Facebook facebook.com/friccoes, nosso Instagram @Fric.coes ou mandar um e-mail para a gente no projetofriccoes@gmail.com. Tudo sem cedilha e sem til.
Márcio
No roteiro e apresentação, eu, Márcio Andrade; na edição, Priscila Nascimento; na produção, Janaína Guedes; na coordenação geral do projeto, eu, Márcio Andrade. Esse projeto é uma realização da Combo Multimídia e conta com incentivo da Lei Paulo Gustavo, através do Edital Geraldo Pinho, da Prefeitura do Recife. Até mais!
