Imagem – Rodrigo Sarmento
Por Felipe André Silva
Realizador e Curador
1.
Estou fazendo um curso de escrita criativa que tem uma abordagem curiosa, em que somos incentivados a falar, sem rédeas, o que pensamos sobre os textos dos colegas. Num dos exercícios, o professor pede que escrevamos um texto, biográfico ou não, a partir de algumas chaves específicas, que negam ou complicam, o que vem a seguir. A minha diz: “Minha mãe contaria isso de outro jeito.”
2.
Minha mãe contaria isso de outro jeito. Mas não contou. Minha mãe prefere calar, prefere rezar um terço e fazer uma macarronada do que contar. Aqui, oito e meia da manhã, os dois sentados em frente à psiquiatra eu peço para ouvir, ouvir a versão dela da história, de como meu corpo deixou de ser meu, de como perder meu corpo, segundo ela, é algo que me cabe, é minha culpa. Eu peço para ouvir, e não há jeito para ela contar. Danielle me disse que nem todo mundo nasce pra narrar, às vezes a pessoa só vive, e escreve quando vive. Mas ali, em frente a psiquiatra, eu queria saber de que jeito ela contaria, se assumiria a culpa, se diria não saber de nada, se mais uma vez me mandaria esquecer. Já faz muito tempo, esqueça isso. Esquecer é uma forma de contar. Saio do consultório e choro desesperado, nunca vai existir jeito nem outro jeito. Eu que me narre.
3.
“Ter vivido uma coisa, qualquer que seja, dá o direito imprescritível de escrevê-la.
Não existe verdade inferior.”
Annie Ernaux
4.
Eu que me narre. Foi o que fiz em 2019 quando, desesperado por tirar do meu corpo, do meu sistema, uma dor que levei muitos anos para entender, escrevi e dirigi um filme chamado cinema contemporâneo. No filme, eu usava uma foto da minha pré-adolescência, onde estou cercado por homens que abusaram sexualmente de mim para falar de tantas outras coisas, como o estado da curadoria do cinema brasileiro, a falta de cuidado que se tem com crianças que aparentam ser muito independentes desde cedo, e como a escolha de falar é, por si só, um gesto político.

5.
O meu desejo era que, transformando o trauma em arte, eu conseguisse transformar ele num objeto, num totem, em algo que estaria ali, à distância, para ser lembrado, tocado, observado e não mais vivido. Seria a arte cumprindo seu papel social? Fazendo o filho de uma empregada doméstica que foi abusado pela família da patroa poder dar voz a essa história enquanto comenta o fato de que o documentário em primeira pessoa não estava mais em voga no olhar das curadorias Brasil afora?
6.
Trauma
substantivo masculino
[Psicologia] Experiência emocional intensamente desagradável que pode causar distúrbios psíquicos, deixando uma marca duradoura na mente do indivíduo: trauma psicológico.
7.
Escrever sobre o trauma é lidar com uma ruptura que desafia a linguagem comum e instaura um vazio narrativo onde as palavras habituais costumam falhar. Como bem pontuou Annie Ernaux, esse ato é como “atravessar uma zona de trevas”, em que a escrita não busca uma cura milagrosa ou definitiva, mas sim a organização do caos para dar forma ao que, até então, era indizível. Nesse processo, a autoficção surge como uma ferramenta de montagem: em vez de uma explicação linear, o autor opera com fragmentos, silêncios e repetições, assumindo a linguagem como uma tentativa tateante. Enfrentar o trauma pelo texto exige o resgate do detalhe, um gesto, uma foto ou uma frase ouvida, como via de acesso para que a escrita revele e descubra sentidos no seu próprio ritmo. Afinal, o objetivo não é necessariamente lembrar de tudo com precisão, mas sim conseguir sustentar e dar contorno àquilo que insiste em retornar.
7.
A ideia de totem pode ter funcionado, mas agora eu não era mais o cineasta dos filmes gays, melancólicos e silenciosos, e sim o cineasta bravo que expõe suas dores sem medo. Mas havia medo sim, havia total terror em ter que dar conta de falar sobre estupro, abuso, violência, incontáveis vezes, mas o fiz, vendi minha dor acreditando que o “sucesso” desse totem se tornaria moeda de troca, me colocaria em algum trampolim para chegar onde eu queria, nas verbas que eu queria, nos espaços e pessoas que me permitiriam fazer o que eu queria.
8.
Não é assim que acontece.
9.
Não é assim que acontece porque o atual jogo de fomento do cinema brasileiro, no que diz respeito a minorias, tem uma única fome, e é de desgraça, sofrimento, e uma exposição violenta das próprias mazelas; então vez após vez, quando tentei, com o “sucesso” adquirido às custas da minha dor, fazer um filme sobre gays apaixonados, sobre uma viagem ao inferno, sobre um galeria de arte decadente, a pergunta voltava: Mas e o negro nisso? E o violentado nisso? E o favelado nisso?
10.
Entendi que o meu lugar não era o do sucesso, e sim o da pena, o daquele que é eternamente observado por sua dor, e não ganha nada em troca disso. Resolvi eu mesmo retrucar, falando sobre outro tempo, e aí nasce o Cinema Moderno.

11. Estreado na Mostra de Tiradentes de 2026, Cinema Moderno é um curta que esgarça e modela a ideia de seu antecessor, onde a voz de uma atriz falava por mim, tomava minhas dores. Desta vez, estamos eu e a atriz em cena, ela falando, eu calando, os dois fazendo um número de sapateado para tentar convencer a banca do edital de que sim, merecemos estar ali, merecemos aquela verba para falar de outra coisa, eu mereço mostrar meu próprio rosto e não a máscara agarrada à minha pele que uso para fingir ser algo que não sou.
12. Quando da estreia, a qual não pude comparecer, enviei uma mensagem bastante contundente, que causou zero impacto na plateia, assim como o filme. Ela dizia: Bom dia a todo mundo que está presente. Antes de qualquer coisa eu queria pedir perdão pela minha ausência a vocês que queriam conversar sobre o filme. A gente sabe que nesse mundo tudo gira em torno de dinheiro, e foi a falta dele que deixou a minha saúde num estado tão assustador que hoje me vejo impedido de viajar. Pedi pro meu querido amigo João ler esse texto para dar alguma satisfação e também para oferecer algum contexto a esse filme, realizado no fim de 2024, mas pensado e repensado várias vezes desde 2020, o que fez com que ele se tornasse um amálgama de visões sobre viver e fazer filmes que vão desde o ingênuo até o ressentido. Em Janeiro de 2020, eu estive aqui no festival pela primeira vez com um filme chamado Cinema Contemporâneo, que costurava a narrativa do abuso sexual que sofri na infância com um certo estado de coisas na curadoria do cinema brasileiro. Era uma visão muito particular sobre o que eu entendia serem filmes interessantes ou não para os curadores e curadoras no Brasil, e ainda que, a partir de um olhar enviesado, acredito ter acertado algumas coisas, já que até hoje sigo vendo um grande número de filmes interessantes serem preteridos em seleções porque o tema toma a frente da discussão e soterra as possibilidades de se discutir forma. A estreia do Cinema Contemporâneo causou algum interesse, o filme começou a ser discutido em faculdades, cursos, aulas, comecei a ser cobrado pelo próximo passo, comecei a ser cobrado para falar mais como um cineasta negro, um cineasta favelado, um cineasta violentado, e obviamente não queria falar disso, não é esse o cinema que me interessa, não tenho obrigação de avançar o debate social com a minha arte. O debate e as complicações sociais eu já vivo diariamente como morador de comunidade, como subempregado, como alguém que depende do SUS para sobreviver. Naquele 2020, ouvi que o meu curta era mais interessante do que meu longa, então prestes a ser lançado, chamado Passou, pois este último parecia pertencer a outra época do cinema brasileiro, um filme de referências antiquadas. Fiquei numa grande dúvida sobre ter rifado meu sofrimento dessa forma, fazer arte a partir dessa dor, valeu a pena? O que desejam de um cineasta negro, gay, favelado, é a análise sofrida de sua existência, suas “potências”, “corporalidades”, entre outros termos vazios? Porque não um cineasta negro e favelado falando de amor, falando de pessoas brancas de classe média alta que não tem preocupações reais? Os brancos filmam os pretos, os aborígenes, os cherokee, os filipinos, os taiwaneses, apontam a câmera para todos os lados e não estão fazendo “cinema branco”. Acho curioso. E aí eu faço esse filme, chamo ele de Cinema Moderno, ponho uma pessoa branca para falar por mim, e pedir perdão por mim, e implorar para que a banca do edital entenda que eu não quero falar mais da desgraça que habita o meu corpo. A desgraça existe no mundo, ela move inúmeras narrativas, mas ela não precisa ser o que move minha arte. Fiz esse filme para discutir o que desejam de um cineasta negro, os curadores e os festivais: Uma autoanálise de suas agruras? Meu querido amigo e também cineasta Leonardo Mouramateus comentou que, com esse filme, eu tinha feito a minha primeira comédia, e concordo com ele. Às vezes, só rindo pra não chorar, pra não matar e nem morrer. Isso ajuda na conversa?
13. “O texto sentimental é complacente: sente prazer em sua descarga emocional e não espera nada além de empatia do outro lado. Em contrapartida, a boa literatura quer tanto ser compreendida como não sê-lo, corre o risco do mal-entendido, do subentendido e da incompreensão. Em suma, arrisca o sentido, que é elusivo, sempre aberto, sempre negociado com a — e habilitado pela — leitora. “Escrever no prazer assegura a mim, escritor, a existência do prazer do meu leitor?”, pergunta-se Roland Barthes.”
Betina Gonzalez

14. Do que é feito e o que se espera do bom cinema brasileiro? Imagens oníricas do Rio de Janeiro para o deleite de curadores estrangeiros? Delírios queer que vão ser aplaudidos somente por seus pares e jamais furar a bolha? Estamos tentando de fato furar a bolha ou falar para dentro, falar para nós mesmos já é suficiente? Em Cinema Moderno, eu sapateio, muito mal, diga-se de passagem, para furar uma bolha, a minha bolha, a de estar em frente a câmera, de finalmente ser o personagem que tanto fugi de ser, mas é impossível fugir da própria narrativa, quando ela é tão específica, tão dura, tão violenta. É impossível fugir da narrativa e eu que me narre.
15.
Discordo de Édouard Louis quando ele diz que “Escrever uma autobiografia é, na verdade, sumir”. Eu escrevo para aparecer e comparecer, me queiram aqui ou não.
16.
Aparecer é um risco que se corre quando o silêncio da casa se torna insuportável. Se Édouard Louis vê na escrita um sumiço, vejo um holofote com poder violento de queimar a pele do destacado: enquanto escrevo, não desapareço, eu me multiplico em versões que o mercado pode consumir, digerir e, depois, esquecer na próxima curadoria. Mas há algo na “minha” verdade que não cabe no edital, nem no sapateado, nem na tela. É a parte que sobra quando o filme acaba e as luzes se acendem; a parte que não é “potência”, nem “corporalidade”, nem “pauta”. É apenas o resto de um homem que, após transformar o próprio abuso em objeto de estudo, precisa voltar para casa e encarar o prato de comida, ou a falta dele.
17.
No fim das contas, minha mãe talvez tivesse razão em preferir a macarronada e o terço. O silêncio dela não é falta de narrativa, é uma recusa de mercado. Ela não vende a dor porque sabe que o preço pago nunca cobre o custo de senti-la. Ao contrário dela, eu transformei minha vida em cinema, em tese, em fúria. Mas aqui, diante da folha branca deste exercício, percebo a ironia final: eu me narrei tanto, e de tantas formas, que agora sou o único que conhece o que não foi dito. Minha mãe contaria isso de outro jeito. E, pela primeira vez, eu entendo por que ela escolheu não contar de jeito nenhum.
